Poiésis

quarta-feira, abril 21, 2010

Dança

A concha nos ouvidos é o teu som de paz.
Seus pés tatuados, mergulhados na areia branca,
É a sua dança e canção do corpo que baila.
Baila menina porque essa liberdade ninguém te compra.
Dança menina pela areia sob as ondas que abraçam os teus pés.
Baila menina porque o vento marinho também é seu:
Toca o seu rosto, penetra em suas narinas, estremece a espinha até
a ponta de seus cabelos negros tocarem teu rosto.
- Doutor? Médico?
- Não. Não há para ela melhor remédio!
Baila menina na beira da água azul,
de braços abertos como criança que não se cansa,
Respirando fundo e renascendo por dentro.
Como as estrelas que agora acordam
Lá, no fim daquele mar.

Do outro lado


Marc Chagall

Eram pernas mancas. Duras.
Seguian na direção contrária do tempo,
E fugiam da velhice.

segunda-feira, abril 19, 2010

Ciúme

E pensar que ele já não está mais aqui.
Está longe, abraçado a outro corpo e na cama dela.
Rindo das futilidades da vida, trocando carinhos e se beijando em pleno calor da noite.
Conversam baixinho, tão próximos um do outro a ponto de sentir o cheiro dele.
O seu olhar de desejo, o seu abraço apertado e peito quente, confidências de sonhos cotidianos mudaram para outro endereço. Ele se abrigou em outro corpo.
Não me importo. Sou kamikaze de mim, peço desculpas a mim
se tais pensamentos suporto e me agridem por dentro.

. . . . .

Reunirei meus pedaços quando o tempo bater na minha porta.



sábado, abril 17, 2010

Want You...

Meus dedos que entranhavam nos seus cabelos negros
e pele em plena fúria.
Por onde anda sua boca que, como taça, te bebia?
Bebia cada gole até encontrar a tua língua
que girava e gravitava sobre a minha;
percorrendo sua orelha, descia pela espinha
que gemia por uma catástrofe iminente.

quarta-feira, abril 14, 2010

Momentos de Insônia

                      (Imagem: by Si)

 

Nossa! Finalmente você apareceu.
Quanto tempo!
Você não mudou nada...
Está tão romântico e ao mesmo tempo... Tão alegre???
Xiiii... Alegre até demais para uma e meia da noite.
Você deve estar apaixonado...
Que coisa estranha, a nossa música...
Você está tocando tão desafinado. Já esqueceu?
Aí, bem do alto desse prédio, está rasgando noite adentro.
Ihhhh...! Luzes acenderam.

Ouço vozes aos berros. Eles não estão gostando.
É, aqui em baixo, dá para ouvir muito bem.
Mas você não se incomoda.
Me falaram que você tem outra
E me disseram também que é muito bonita...
Hum... Doeu um pouquinho.
Mas que direito tenho eu?
Você bem que poderia aparecer...

Às vezes, me lembro de ti e tenho saudades...
Não seria algo mal resolvido?
Ai! Você apareceu!
Que vergonha!
Estou de pijama e descabelada, olhando para a sua janela, não consigo disfarçar!
Até que você calmamente, sorrindo, acena com um thau e diz:
- Boa noite
E o que mais poderia acontecer se não isso mesmo?
Um simples e mixo... Boa noite
É... Preciso dormir.
Já são duas e meia da madrugada e eu estou aqui parada olhando para o alto,
Para a sua janela.
Então... O que me resta a não ser um ...
Boa noite.


(Simone Prado 18/06/2001 - Uma  estória quase verídica.)

Micro férias

Estico um braço, estico o outro... Ah, eis um alívio!
Meus micros dias de férias de estudante após uma bateria fatídica de provas.
- É bom?
- Não!  É ótimo!!!
E como passam rapidinho eles. São essas horas que me cabem
sem me preocupar com o dia seguinte:    
posso ficar horas a fio fazendo o que mais gosto.    
Aproveitarei para colocar meus filmes, músicas e escritos em dia!
É curtir essa M-A-R-A-V-I-L-H-A na companhia de pipocas !!!

domingo, abril 11, 2010

05:45 pm

É a boca da noite
entrando pela minha varanda.
Jogada em minha rede,
vem a saudade e a vontade
de (gritar! gritar!) ficar quietinha
esperando você chegar


terça-feira, abril 06, 2010

Desalinho

Tem dias que parece que o mundo anda desequilibrado de frases, verbos e diálogos descompassados como mariposas em torno da luz. Ah, boquinhas! Não levam e não chegam a lugar algum. Então, eu mesmo ando em desequilíbrio; desequilibrada com o meu “eu” que também anda em desalinho. São os meus muitos sentidos traiçoeiros, que esqueço, e me passam uma rasteira... É, não tem jeito! Tem dia que o melhor é não sair da cama e ficar de boca fechada.

quinta-feira, abril 01, 2010

Conta gotas...

Às vezes me sinto alegre, desajeitada, perdida, enrolada, atrevida, ansiosa, doidivana, ferida, demente, ausente...
É... A cada dia uma história a ser contada. A cada dia algo novo vem de mansinho ou me toma de assalto. É para que possa experimentar e, só assim, perceber o que existe lá, bem do outro lado da linha e... Acumular sabedoria.

segunda-feira, março 29, 2010

Cinderela : Um conto às avessas

Era uma vez uma menina. Bonita? Hum... chamada Cinderela. Menina mal amada por sua família. Família esta formada por duas irmãs megeras e uma madrasta. Família que não é a de sangue, mas postiça, emprestada mesmo! E que desejava muito ir à festa pomposa do magnata Marcelão que ia acontecer na cidade, pois este estava a procura daquela que fosse a princesinha de seus belos olhos e coração.

Enquanto isso, em sua casa, como sofria a pobre da Cinderela! Sua família era cruel, tratava a coitadinha com desprezo, pois apesar de ser apenas só um pouquinho feinha, só um pouquinho quatrolho, estrábica e narigudinha, no fundo possuía um carisma e bom coração... Bem, isso, às vezes... Nem sempre.

Suas irmãs de tanto comer porcarias na rua e em casa, e de passar horas a fio em frente ao Orkut e MSN, ficaram extremamente sedentárias e troncudas. Não! Troncudas não. Gordas mesmo!

Cinderela não possuía folga, trabalhava demais. Vivia triste e solitária. Tinha que fritar vários pasteizinhos por dia, passava horas pilotando o fogão e esfriando a sua barriga no tanque. Isso era uma rotina terrível. Seus cabelos eram duros, encaracoladinhos e presos - alguns fios, ás vezes, se soltavam e arrepiavam em volta do rosto, deixando a sua face parecida com o sol. Eles eram fios rígidos devido a tanta gordura que subia a cada salgadinho frito para o deleite de suas irmãs. Mas, mesmo assim, como eu disse, Cinderela tinha lá seus encantos.

Na noite do grande baile , Cinderela, ou melhor, Cindy - Cindy para os íntimos - estava tristonha. Sua madrasta a fizera trabalhar dobrado na cozinha e no trato para com as outras irmãs:

- Cinderela! – Gritava a irmã mais velha - Largue de moleza, sua lesma! Venha depressa me ajudar com os meus sapatos!

- Pinte os meus cabelos, Cinderela! Depois quero que desencrave e faça as minhas unhas dos pés, e limpe também as minhas micoses! Escove e passe meus treze vestidos de gala, pois vou escolher com qual deles eu ficarei lindíssima para a festa. Ah, mas o magnata Marcelão... Esse sim, não há de resistir aos meus encantos... E ande rápido com isso, lerdeza! - dizia a irmã mais nova para a borralheira.

O magnata Marcelão era o sonho de consumo de qualquer mulher. Era moreno, lutava jiu-jitsu, boxe tailandês, judô e caratê. Era um homem bombado... Saradão!!

Mas o que mais chamava a atenção da mulherada e que todas elas se derretiam era a sua boca, sua boca sedutora parecida com a do cantor Wando. Um arraso de homem!!

Enquanto isso, Cinderela não tinha um vestido, um sapato, nem mesmo um perfume Avon que a pobrezinha pudesse disfarçar o cheiro rançoso de sua pele e cabelos engordurados. Mas para se vingar, Cinderela - Cindy, a minha amiga do peito - ao lavar as privadas das suas irmãs, usava suas escovas de dente, passava em cada cantinho do vaso sanitário, jogava uma leve aguinha e, por fim, guardava novamente como se nada tivesse acontecido às escovas. Mas Cindy... Cindy não era uma menina má. Isso era apenas um pequeno gesto para tentar aliviar a sua tensão e se vingar da crueldade da sua família.

Foi então que, quando viu as megeras saindo para o baile, ela se lamuriou pelos cantos da casa. Ela também queria muito ir nessa festa, no grande baile e conquistar o magnata.

“ Essa festa sim, seria uma boa hora para eu me livrar de vez desse encosto de família!” –Pensava Cinderela.

-Estou tão, tão cansada... Só mesmo um anjo para atender esse meu sonho, porque todas as moças da cidade estarão lá e, uma delas, será a sortuda a ser escolhida pelo magnata Marcelão, o herdeiro!

-E aquelas víboras das minhas irmãs saíram e não me deram, nem sequer me emprestaram um vestido para ir ao baile!

Só que de repente, do nada, um barulho é ouvido. Surge em sua frente, em meio a muita fumaça branca que cheirava a álcool, uma pessoa; alguém que iria ajudar Cinderela a realizar o seu grande sonho de menina moça.

- (hic!) Oxiiii...! Ó xente, bichim! Ó meu Padim Ciço!! Eu queria (hic!)... Eu só queria saber só de uma coisinha. Quem foi o infiliz que me fez sair de lá do meu bem bom até aqui (hic!)- Resmungou o ser que parecia vir do além.

Cindy, assustada com o que surgira em sua frente, perguntou admirada:

- Quem é você?! E que aparência horrível você tem!! O que está fazendo aqui?

- Ó xente! – respondeu com fúria - Num tá vendo que eu sou seu fado madrinho, ora?! (hic!)

Cinderela, nesse momento, deixou a vassoura cair de sua mão, arregalou os olhos e boquiaberta perguntou:

- Fado madrinho?! E bêbado? Fedendo a cachaça ainda por cima?! É o meu fim!

Enquanto ela falava, o madrinho, com seus olhos também arregalados, parecia não acreditar no que estava a sua frente. Não parava quieto, parecia o próprio boneco João bobo e dizia para a moça enquanto se balançava em seu próprio eixo:

- Mas tu é feia, vice? (hic!) E eu já vou logo dizendo minha filha, faço até alguns milagres, mas não me chamo Pitanguy!

- Mas tu é feia, heim? Vou te contar... – continuou ele falando com a caninha embaixo do braço e o copo na mão:

- De que inferno te tiraram, minha filha? Ó meu Padim Padi Ciço – se lamuriava o madrinho - Que inferno é esse que tu me mandaste, sô?!

A moça respondeu embravecida:

- Ah! Não seja imbecil, seu insolente! E você o que é? Um bêbado, isso sim!

Com a língua que mais parecia estar pesando na boca, respondeu o madrinho:

- Vixi, menina! Mas o fado aqui, daqui a pouco estará curado. Não se preocupe não? De qualquer modo, vou resolver (hic!) seu caso, vice? Não fique avexada assim não, minha bichinha. Você não quer ir ao baile para conquistar o boca de Wando? Então se prepare, porque você se tornará uma nova mulher em poucos minutos. Vou realizar o seu desejo e é agora! (hic!)

De repente, o madrinho ajeita o copo em sua mão, enche de cachaça e rapidamente joga em cima de Cinderela.

- Hãm?! Mas o que é isso, seu louco embriagado? Olha só o que você fez?! Você só pode estar brincando comigo!

- Calma. Calminha, ó xente! Daqui a dois minutos você verá a transformação. E não se esqueça que esse encantamento só vai até a meia-noite, depois disso, já era minha filha! Voltará a ser o mesmo filhotinho de ET dos infernos de sempre! (hic!).

Passado dois minutos...

- Ó meu Padim Padi Ciço! Eu sabia que o seu afilhado aqui podia contar contigo, meu Padin! (hic!) Viu? Você tá uma belezura, minha filha! Não vai ter boca de Wando que te resista! - Disse o madrinho, feliz e agradecido.
Cinderela não acreditava no que lhe havia acontecido. Olhava-se várias vezes no espelho e não acreditava em como se tornara tão linda. Seus cabelos agora se tornaram lisos e longos até a cintura. Trajava um belíssimo vestido vermelho que revelava uma bonita silhueta que ela não tinha. Finalmente, agora sim ela poderia ir ao baile e desbancar as suas irmãs megeras. Elas iriam morrer de inveja da sua beleza. Cindy, a minha amigona do peito, estava linda.

- Então, agora vamos! Já estou pronta e radiante! Mas... – disse ela, pensativa- Só está faltando uma coisinha... Como iremos ao baile? Não temos nada que nos leve para o baile agora? Faça alguma coisa madrinho! E rápido! A hora já está avançada e não terei muito tempo para a festa.

Então o madrinho parou um pouquinho o seu ritmo de boneco João bobo para pensar, só que não conseguiu, pois foi logo tombado para o lado e quase caiu. Até que, finalmente, surgiu uma idéia:

- Vixe Maria! Valhe-me deus! (hic!) Por um acaso você não tem um jerimum em casa, não? Preciso de um jerimum, vice? Ele será a nossa tábua de salvação! Vou transformá-lo em uma linda carruagem. Mas preciso dele agora!

Cinderela saiu desabalada a procurar em toda a cozinha por uma abóbora. Abriu todas as gavetas das três geladeiras e todas as portas das dispensas, e nada de abóbora. Desesperada, disse para o fado madrinho dar o jeito dele. E assim, depois de muito pensar, ele teve uma idéia.

- Já sei. (hic!) Não tem outro jeito, minha bichinha... - Dizia ele olhando tristemente para sua garrafa de cana - Vou ter que transformar você em uma linda carruagem. Não tem jerimum, então, vai tu mesmo minha velha companheira de guerra!(hic!)

De repente, fora de casa, depois dele pronunciar algumas palavras olhando para a garrafa, eis que ela se transformou numa... Numa... Numa carruagem... É, digamos assim.

- Hãm?! Fado Madrinho! Mas o que é isso que está em minha frente?? - Perguntou Cinderela desesperada - Eu não vou ao baile com isso! O que vão pensar de mim?

- Ora cabritona! Largue de frescurice ! E você queria mais o quê? Casa que não tem jerimum só podia dar nisso mesmo! E olhe, ta muito é bom!(hic!) E vamos simbora pro baile que já estou perdendo a paciência.

-Mas isso não é uma carruagem, isso é um, um ... Um Rural! Um carro Rural! Eu não vou ao baile com isso é nunca! - falou Cinderela decidida.

O fado embravecido retrucou:

- Oxiiii...! Mas olhe! Veja só isso, minha nossa?! Tá reclamando do quê, coisinha?! Oh mulher desmilingüida! Pois fique sabendo que esse é o melhor de minha terra! Então largue de bestagem e entre logo nessa joça, antes que eu perca a minha paciência e te deixe aí de uma vez. E vamos simbora gambada! (hic!) Que a Rural vai arribá!

- Ande, entre logo Cinderela! Eu mesmo dirigirei essa belezura. E não se preocupe, pois quem tá comigo, tá com Deus! (hic!)

E partiram os dois ziguezagueando pela rua afora até chegarem à mansão do Marcelão. E chegando lá, todos os rapazes se admiraram ao ver Cindy, digo, Cinderela. Ela era realmente a mais bonita da festa, todas as mulheres que ali estavam invejavam a sua beleza. Sua família postiça não conseguiu reconhecê-la. Marcelão, boca de Wando, quando a viu não queria saber de outra moça para dançar, só queria ficar, estar na presença dela. Enquanto isso, na festa, já cansado de esperar no carro Rural, entra o fado madrinho para tomar umas cervejas, pois estava seco fazia horas. Ao entrar porta adentro no salão, madrinho não se contém no que vê e, revoltado, diz embravecido:

- Ó meu deus!(hic!) Ó meu Padim Padi Ciço! Acabe logo de vez com essa missão que eu quero mais é voltar pra minha terra! Oh raio de povo feio é esse aqui, minha Vige Maria.
Oh festa pra ter baranguete! Descunjuro. Expia só mais isso! Desse lado da sala tudo boiola, (hic!) do outro lado, só corno. Quanto desgosto meu Padin Ciço...

De repente um cidadão se levanta de umas das mesas e se revolta com aquilo que acaba de ouvir do fado madrinho:

- O quê? Quem você pensa que é? Eu não sou corno, não!

- Então seu boiola, passe para o ouro lado da sala! - Disse o madrinho cambaleando nas próprias pernas.

Irritado, aquele homem sentindo-se ofendido, desabotoava o punho da blusa e arregaçava as mangas para um confronto com aquele bebum:

- Oh meu senhor... - Disse o rapaz sobressaltado, mas não conseguiu terminar sua fala, pois foi logo interrompido pelo madrinho.

- Meu senhor, não!(hic!) Eu não sou seu, coisa nenhuma! Assim você está me ofendendo. Eu sou é macho ! Mas eu não tô dizendo minha Vige Maria?!

Enquanto os dois discutiam, as mulheres, histéricas, começaram a cercar o magnata Marcelão exigindo-lhe que dançasse com elas também, pois ele só tinha olhos para Cinderela. Mesmo assim, elas não se contiveram e começaram a gritar num ataque de nervos por aquele que seria o herdeiro, o homem da vida delas. Porém, em meio a muito tumulto e histeria, tocou doze vezes o badalo do relógio, deu meia –noite e Cinderela precisava fugir dali de qualquer jeito. Mas o Marcelão... Ah, o Marcelão... Segurava a moça em seus fortes braços morenos e saradões.

- Não, me largue! Preciso ir agora para casa! Por favor, me solte!

- Mas porque tanta pressa? Não está gostando da festa e de estar comigo, doçura? – Falou o magnata com toda sensualidade, projetando aqueles lábios de Wando à medida que ia se aproximando da face de Cinderela, fazendo com que ela percebesse, de longe, um leve mau-hálito.

Com muito custo, Cinderela consegue se livrar dos braços daquele homem sedutor e corre para o Rural que estava estacionado em frente, enfeando a mansão. Só que, infelizmente, era tarde demais. No carro ela voltou a ser a mesma borralheira que era antes, e o carro, este se transformou na velha garrafa de pinga. Ficou espantada, triste a coitadinha. Tentou se esconder atrás de uma árvore frondosa que havia naquele imenso jardim. Escondida, ao olhar para o seu pé, se lembrou que deixara um dos seus sapatinhos de verniz cristal no salão quando saíra correndo. Até que lhe veio na mente uma idéia. Pediu para o fado madrinho voltar à festa e pegar o sapatinho que lá havia deixado. O fado, por sua vez, reclamou por demais, mas resolveu atender o pedido da borralheira.

Enquanto isso, no salão, se encontrava Marcelão rodeado de mulheres. Todo ele era de uma tristeza e desconsolo só devido ao sumiço repentino da princesinha dos seus belos olhos e alma. No entanto, andando pelo salão, enquanto inspecionava a criadagem e os convidados, o mordomo achou um sapato e entregou ao magnata para ver se ele reconhecia aquela peça de vestuário.

- Senhor? - Interrompeu o mordomo Alfred os pensamentos longínquos e triste do seu patrão.

- Sim, Alfred. O que você quer? O que é isto que está na sua mão? – Perguntou Marcelão com uma voz cansada de tristeza.

- Esse sapato, Senhor. Acabei de encontrar no meio do salão. Não seria ele o sapato da dama que estava o tempo todo ao seu lado na festa?

Nesse momento, depois de expulso do salão pelos seguranças, entra o madrinho bebum porta adentro, cambaleando nas próprias pernas. Entra tão rápido e o corpo tombando para o lado que chega a esbarrar na mesa de mármore que quase caiu.
- Vixiii...!! Calminha aí! Não me empurra, não!(hic!) - Dizia ele olhando para a mesa que há pouco esbarrara.

Nesse momento o fado resolve se aproximar do magnata e do seu mordomo para ouvir a conversa, pois ali bem perto tinha na mesa uma garrafa de uísque escocês.

- Oxiii...! Obrigado, meu Padin! Até que a missão não é tão infernal assim, minha Virge Maria! – Feliz dizia o bebum já com a garrafa na mão.

Enquanto isso, Marcelão, continuava a conversar com o seu mordomo Alfred.

-Traga aqui, Alfred, esse sapato. Não me lembro de tê-la visto dançar com ele.

- Bonito não Alfred? Mas que sapatinho mais lindo! – Admirou-se grandemente, e como sorria o magnata boca de Wando ao pegar e ver o sapato brilhante em suas mãos.

- É sim, Senhor. É lindo mesmo, e como brilha!

Mas o magnata ficou tão admirado, mas tão admirado com tamanha beleza e brilho radiante daquele belíssimo sapato vermelho, que não mais resistiu, não conseguia suportar e resolveu atender a sua angústia interior que corroia demais a sua alma.

- Alfred, por favor, retire o meu sapato, pois vou experimentar esse lindo sapatinho - ria o magnata por satisfazer seu sonho com tamanha beleza daquela peça de vestuário.

- Ohhhhh... !!! - Ovacionou toda a mulherada, histérica e frustrada após ouvir o desejo do Marcelão.

Nesse momento, o madrinho que estava dormindo e babando, deitado na mesa bem próxima da reunião, após ouvir aquilo do magnata, de repente levanta a cabeça para olhar aquela cena e, logo em seguida, grita com sua voz mole de tanto que bebeu:

- Oh, meu deus! Que esse mundo só pode mesmo tá é no fim! Mas que desgosto, meu pai! Bem que eu percebi que esse cabra tinha uma vontade de ser homi! Oh, terra de ninguém meu Padin Padi Ciço! Descunjuro! - Dito isso, se benzeu.

Lá fora, no jardim, Cinderela disfarçava e espiava em umas das janelas da casa o que estava havendo no salão devido a tanto alvoroço das mulheres que gritavam histéricas.

- O que você está fazendo aí parada, mocinha? A festa já começou faz horas! Porque não está com seu uniforme? Deixe de moleza! Vá para a cozinha, se arrume e trate logo de servir os convidados! – Furioso, indagou Alfred a Cinderela, não a reconhecendo.

Ela, muito atônita, porém aliviada, dizia baixinho para si enquanto espiava a festa da janela:

- Mas que papelão, heim... Seu Marcelão? Olha só no que eu iria amarrar minha égua?! E eu crente, crente que iria me dar muito bem nessa vida... É, nem tudo que reluz é ouro!

Enquanto isso, lá na festa, todos embalados por luzes cor de neon e rosa - choque que não paravam de piscar, dançavam freneticamente ao som da música “I Will Survive”.

As mulheres em pleno ataque de nervos e inimigas mortais, após a fatídica revelação do magnata Marcelão, fizeram as pazes e começaram também a dançar. Por sua vez, Marcelão, dançava, e dançava requebrando aquele corpo marombado até o chão. Estava se sentindo radiante com o seu colar de plumas pink e sandálias plataforma que há muito tempo escondera no armário. Sentindo-se a própria “Priscila, a rainha do deserto” e muito bem acompanhado com o fado madrinho, o magnata não parava de se requebrar. E todos dançaram, e dançaram, e beberam a noite inteirinha. E foram felizes para sempre.

Autoria: Simone Prado.
Conto registrado na Biblioteca Nacional - Escritório de Direitos Autorais- (E.D.A- RJ)

quinta-feira, março 25, 2010

Inquieta

















Deixe isso tudo pra trás
Suas armadinhas e ciladas
Todas elas mal traçadas
Só foram testadas
Contra ti


Seu coração ainda sonha
Mas sonha sangrando
Sangra pelos teus...
Meus erros também
Das muitas palavras
Amargas e frias

Não pouco são as feridas
Feridas que se multiplicam
Multiplicam em mim
Do seu próprio engano
Daquilo que guarda
No coração e te fere
E que parece não mais causar-te
Nenhum espanto...
Acostumou-te com o pranto?

Ó alma linda sim, e inquieta também
Na noite silenciosa, sou eu
É a minha lembrança que te desperta
O desejo de estar ao ao meu lado
Movem em mim as lágrimas
Lágrimas caídas e caladas
Na alegria então compartilhada
Ás vezes pouco, ás vezes rara...
Muito mais rara
Mas que no fundo sabes:
Não estou de todo ausente
Sim, ainda estou aqui
E passeio na sua frente
Sempre estive e
Estarei por muito tempo

Sim, tenho defeitos
Tenho defeitos múltiplos
Defeitos talvez, quem sabe
De um coração carente
De um coração inseguro
De não saber o fim
E nem mesmo o futuro:
Quando perto estou de ti,
Quer-me distante
E quando distante,
Mas próximo estou...
Só quero que saibas
Que nem tudo é incerteza
Ainda guardo em mim
Um pouco de beleza

Não valorize, portanto
A acometida tristeza
Por mim, meus enganos
Por aquilo que te fiz :
Muitos danos...
Quero que novamente te encantes
E que agora não se espante
Na mudança de minha vida
Do meus passos sombrios
Meus passos errantes

Não! Não só por um dia
Nem mesmo por um instante
Porque descobri que amar
É muito mais do que comer
Mais do que simples viver
É valorar cada minuto
Cada segundo da sua presença

É viver para te bem querer
Querer e ser seu amante
Um amante de perto
Um amante constante.

sábado, março 13, 2010

Cantemos o amor!

Essa semana, uma pessoa me disse que não acreditava no amor e que, segundo a opinião dela, "... o amor é como remédio com prazo certo de validade: dois anos!"

Eu acredito no amor. Porém, não acredito num sentimento que pensam e confundem por também achar que é amor: sentimento comodista, teatral e aproveitador, que a todo o tempo maltrata e , ardendo em ciúme exacerbado, possui uma única função: aprisionar. Mas acredito no amor em si , amor para ser vivido e sentido com todo o seu pacote de incertezas, encanto, respeito - acima de tudo-, cuidado e alegria. Ou seja, cheio de vida que nos ensina e nos faz caminhar nesse grande aprendizado. Um amor no seu todo: cantando, vivenciado e poetizado por cada um de nós à medida que o sentimos. Amo viver o amor. Um amor que ora tem ciúmes, inseguro, sofredor por não ser correspondido, ora forte que faz o sangue ferver e que, às vezes, parece cegar. Cegar tudo aquilo que está em nossa volta porque na frente dos nossos olhos e pensamento a pessoa amada ali está. Ou um amor, seja por qual for o motivo, vivido a distância, dolorido de saudade e vivenciado por lembranças. Mas que se diminuir só um pouquinho a dor, o vazio da ausência é logo sentido. Então, há de se nutrir a saudade-presença.
Bem, de um modo ou de outro, ser feliz diante de um sentimento tão nobre.
Então, viva em sua última gota. Cantemos o amor!



Safo, poetisa notável de Lesbos. Seus poemas exaltam o amor em seus belos e singelos versos líricos. Um amor que perpassa o tempo... Sem fronteiras.



domingo, março 07, 2010

Reflexão de Freud a respeito do Poeta

Estava hoje lendo um artigo sobre arte e poesia. Achei interesante essa análise de Sigmund Freud  à respeito do poeta, e quanta diferença em relação ao pensamento de Platão em seu livro "A República". Então, eis aqui:



"Os poetas são aliados muito valiosos, cujo testemunho deve ser levado em  conta, pois costumam conhecer toda uma vasta gama de coisas entre o céu e a terra com as quais o nosso saber escolar ainda não nos deixou sonhar. Estão bem adiante de nós, gente comum, no conhecimento da psique, já que nutrem em fontes que ainda não tornamos acessíveis à ciência"

(Bibliografia: FREUD, Sigmund. Ano 1996, v. IX, p.20) 

Ser grande














É um viver para viver
Cada dia mais e mais.
É deixar um pouco o tempo passar,
Passar e passear aqui dentro
E transformá-lo só um pouquinho.
Deixar se levar
E perceber que no final... Valeu a pena.
É não se conter em si, 
Explodir em coragem,
Um esbanjar de mim.
É não aceitar o comum senso
Para amar o intenso,
E sentir o imenso.
É gastar todas as energias,
Energias até a sua última gota.
É se entregar para crescer,
Para  alma viver e...
Ser gente grande.

quarta-feira, março 03, 2010

Tempus Fugit



O tempo não pára,
Ele passa rápido demais.
Tudo isso enquanto você pensa,
Enquanto você continua pensando...


Olá queridos!

Viva cada dia, colha-o e não deixe para o futuro, pois, se pensarmos bem, a vida se realiza no presente, e esse é o tempo mais certo que temos. O amanhã será sempre o amanhã e pode ser que...  Não estejamos mais aqui, não é mesmo?

“Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio.”
- Fernando Pessoa ( Odes de Ricardo Reis)-

Um pouco mais sobre "Tempus Fugit"...

*Estas palavras foram usadas antigamente como rubrica das horas (dos relógios). Tem sua origem nas Geórgicas, um poema em quatro volumes de Virgilius sobre a vida rural. “ Sed fugit interea, fugit irreparabile tempus” (Mas enquanto isso foge, foge o irreparável tempo) . (Publius Virgilius 70-10 a. C)
Georgicas (gr.) também significa “trabalho no campo”
A obra Geórgica não tem nada a ver com tema arcádicos, ou seja,  bucólicos, mas relacionada aos trabalhos no campo escritos sob a ótica poética do autor.
* Fonte: Dicionário de máximas e expressões em latim, p. 124

Fragmentos de Poesias e indicações de músicas que tratam do tema “Tempus Fugit”:

Música:

“O Tempo não pára” –( Cazuza)
"Tempos Modernos" - ( Lulu Santos)
“Resposta ao tempo”- (Nana Cayme). Belíssima , por sinal!!- Não deixe de ler também uma poesia que fiz sobre essa bela canção: “Tenho que aprender com a Nana...”

Poesias:

Gregório de Matos :
"Goza, goza da flor da mocidade. / Que o tempo trata a toda ligeireza / E imprime em toda a flor sua pisada."

Tomás Antônio Gonzaga:
“Sobre as nossas cabeças,/ Sem que o possam deter, o tempo corre; / E para nós o tempo, que se passa, / Também, Marília, morre.”

Fernando Pessoa:
“Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio”
“(...) Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.”

 A vida , assim como o poeta escreveu, é como um rio que passa e não volta nunca mais. Tudo isso , “ ...enquanto você pensa. Enquanto você continua pensando...”


Um beijão a todos !
Espero ter ajudado um pouquinho.

Resenha Crítica do filme 1492- A Conquista do Paraíso

Resenha Crítica dentro de uma abordagem que envolve aspectos relativos ao colonizado e colonizador.
Filme: 1492- A Conquista do Paraíso.
( 1492- Conquest of Paradise. EUA, França, Espanha, 1992)


O filme “1492- A conquista do Paraíso”, de Ridley Scott, apresenta um cenário grandioso e fascinante diante da beleza da nau Santa Maria, das caravelas Pinta e Niña, a belíssima música de Vangelis, a qual permeia todo o filme, além da ousadia de Cristóvão que se transforma em grande líder de uma conquista. Tudo isso dá um aspecto épico a odisséia de Colombo em busca do paraíso que se caracteriza em descobrir um novo caminho, uma nova rota para a Ásia navegada pelo Ocidente. Nesse cenário de expedição ultramarina em nome da Coroa Espanhola, em doze de outubro de mil quatrocentos e noventa e dois, Cristovão Colombo avista a Ilha de Guanani, atual San Salvador.

Há também de se perceber no filme- até mesmo por essa produção fazer parte da comemoração dos quinhentos anos de “descobrimento” da América, e este longa ter sido produzido dentro da ótica americana - o quanto foi maquiada por Hollywood a relação entre Colombo e os nativos americanos. É difícil de acreditar que tamanha expedição tivesse como lema principal levar o povo a Deus. Porém, tal fato, serviu de pano de fundo para que pudesse por em prática os interesses de Colombo que, no filme, não é verdadeiramente mostrado, mas sim um líder benevolente que respeita as crenças e os hábitos dos nativos, punindo somente quando há uma desobediência. O que na verdade não foi isso que aconteceu, nem muito menos o pacifismo entre índios e europeus durou por muito tempo como demonstra; haja vista, em 1511, os relatos de Bartolomeu de Las Casas ante aos tratamentos dispensados aos nativos daquela ilha desde o início, pois os colonizadores possuíam o comprometimento de prestar contas a Coroa Espanhola e , com isso, não podiam perder muito tempo para logo apresentarem as riquezas em ouro e prata daquela terra conquistada.

Apesar da inocência dos índios em se mostrarem encantados com a aparência dos visitantes e considerando- os como deuses, uma vez que estes vinham do mar semelhante ao deus Sol que sumia ao fundo do oceano , o que se tem como relatos históricos é que a condição de colonizado sempre foi impregnada por batalhas sangrentas em busca de riquezas e estabelecimento de poder, e não foi diferente na América. É sabido que para impor uma cultura ou lei a uma determinada civilização conquistada era preciso, muitas das vezes, aniquilar para impor outra ordem. Não havia generosidade. Ainda mais se tratando de índios que, para os europeus, não tinham valor algum, não eram considerados como gente, além da nudez ser vista por eles como algo pecaminoso, o que aumentava ainda mais o abismo entre as duas etnias. Entretanto, quem assume o papel de algoz e ganancioso na ficção é o personagem Moxica, ausentando Colombo de toda crueldade para servir a ideologia de Ridley Scott diante de um filme encomendado para representar o descobrimento da América.

"A conquista do Paraíso" como apoio didático nas aulas de História também se faz interessante, mas nunca se esquecendo que ficção é sempre ficção, ela possibilida ao autor trabalhar com inúmeras possiblidades de criação, portanto, não precisando ser fiel totalmente aos fatos , a realidade.

 Outra coisa interessante que consta no longa é a gravura inicial de abertura do filme. Na verdade se trata de pinturas do artista Theodore de Bry que , no filme, está tingida de vermelho, simbolizando com isso, que a colonização entre européus e índios não foi tão passífica assim.


Dados do Filme:
"1492 - A Conquista do Paraíso"
Título original: (Conquest of Paradise)
Lançamento: 1992
Direção: Ridley Scott
Atores: Gérard Depardieu , Armand Assante , Sigourney Weaver , Loren Dean , Ángela Molina
Duração: 155 min
Gênero: Drama


Sinopse:
A história do navegador Cristovão Colombo, suas viagens, as dificuldades em provar suas teorias e o clima das Grandes Navegações. Realizado em 1992, em comemoração aos 500 anos do descobrimento da América. Filme denso, bem realizado por Ridley Scott e interpretado com vigor pelo francês Gerard Depardieu. O roteiro é de Roselyne Bosh e o consultor histórico foi Jose Corral Lafuente.

Trechos do filme neste belo clip e música!



Um breve Resumo:

 
O intuito do navegador Cristovão Colombo era chegar as Índias por um caminho marítimo que fosse bem mais rápido do que o já utilizado por Portugal, uma vez que este detinha o domínio do comércio marítimo europeu há mais de oitenta anos.

Seu projeto de navegação foi aprovado pelos reis da Espanha, Fernando e Isabel, apesar de ser bem diferentes dos planos utilizados por Portugal. Colombo seguiria sua viagem rumo ao oeste, pois estava convencido de que a Terra era redonda. Nesse sentido, imaginava que chegaria rapidamente ao seu destino, ou seja, as Índias, seguindo seu trajeto em linha reta.

Para convencer os reis da Espanha, Cristovão acreditava que, fazendo esse percurso, encontraria terras e um povo rico em metais e pedras preciosas. Nesse sentido, a viagem, segundo ele, parecia prometer vultoso retorno financeiro a Coroa Espanhola.

Em 12 de outubro de 1492, depois de ter navegado por mais de dois meses, a expedição chegou a uma terra desconhecida, aportando em uma pequena ilha da América Central, denominada por ele de San Salvador.

Américo Vespúcio, posteriormente, realizou também viagens à América e percebeu que o “Novo Mundo” encontrado não era a Índia, mas sim uma nova e grande extensão de terra que recebeu, em sua homenagem, o nome de América.

* * * * * * * * *

Hola!!!!!!!
Vai uma dica artística importante??!!!
Para quem gosta de artes, não deixe de ver e apreciar a belíssima obra  e uma pequena análise crítica sobre Salvador Dalí: "Criança geopolítica assistindo o nascimento de um novo homem". Vale a pena dar uma conferida. É linda a imagem!!!!!!!


Deixe comentários e críticas também!!
Aproveite esse espaço e sinta-se à vontade!!!
Um beijão!!!

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Vida Infinita
















É uma vida...
Uma vida para ser vivida
Vida para se respirar a liberdade
Libertar-se do mesquinho
Mergulhar no infinito que nos rodeia
Então, a imensidão é o meu lugar
Sempre foi... E sempre será.

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Não tenha medo














Daqui do alto, luzes pequenas
Longínquas na noite
Mesmo assim percebi você
Passeando na cidade
Tentou se esconder no meio dela
Mas você sabe onde posso te encontrar...
Não se importa, no fundo
Quer que te encontre

Sim, eu te vi
Eu posso ficar aqui
Sonhar com você
Fazê-lo feliz
Até que de ti surjam asas
E voarás para fora, para longe
Para longe de ti
Só assim sairás da tua escuridão
Basta que feche os seus olhos
E sinta esse momento

Não... Não tenha medo
Não tenha medo de cair
E se cair
Encontrarás o meu peito
Não tenha medo
É assim mesmo
Essa lua que agora surge
Imensa no breu

Essa música que você ouve agora
É sua... Ela sempre foi sua
Sai de dentro de ti
Sai da tua janela
E percebe que a noite
Já não é mais tão longa assim
Você diz que agora ela passa rápido
Sim, passa rápido... Eu sei
É assim mesmo

Lá fora cai a chuva
E na noite, você me abraça
Posso ficar aqui
Posso sentir as suas asas
Sentir que você voa
Voa pra dentro de mim

Mas não... Não tenha medo
Não tenha medo de cair
E se cair
Encontrarás o meu peito
Mas...
Você já não tem mais medo



Idas e Vidas














Vivo como se amanhã
Fosse o dia da partida
Partida não de mim
Mas das coisas
Sem raizes... Fugidias
A vida é a minha plataforma
De chegadas e partidas
De encontros, despedidas
De dores e alegrias
De saudades desmedidas...
Faço de mim uma grande via
Uma via larga de idas e Vidas

terça-feira, dezembro 01, 2009

Romance Pavão Misterioso

















Eu vou contar uma história
De um pavão misterioso
Que levantou voo na Grécia
Com um rapaz corajoso
Raptando uma condessa
Filha de um conde orgulhoso.

Residia na Turquia
Um viúvo capitalista
Pai de dois filhos solteiros
O mais velho João Batista
Então o filho mais novo
Se chamava Evangelista.

O velho turco era dono
Duma fábrica de tecidos
Com largas propriedades
Dinheiro e bens possuídos
Deu de herança a seus filhos
Porque eram bem unidos.
Depois que o velho morreu
Fizeram combinação
Porque o tal João Batista
Concordou com o seu irmão
E foram negociar
Na mais perfeita união.

Um dia João Batista
Pensou pela vaidade
E disse a Evangelista:
— Meu mano eu tenho vontade
de visitar o estrangeiro
se não te deixar saudade.

— Olha que nossa riqueza
se acha muito aumentada
e dessa nossa fortuna
ainda não gozei nada
portanto convém qu'eu passe
um ano em terra afastada.

Respondeu Evangelista:
– Vai que eu ficarei
regendo os negócios
como sempre eu trabalhei
garanto que nossos bens
com cuidado zelarei.

– Quero te fazer um pedido:
procure no estrangeiro
um objeto bonito
só para rapaz solteiro;
traz para mim de presente
embora custe dinheiro.

João Batista prometeu
Com muito boa intenção
De comprar um objeto
De gosto de seu irmão
Então tomou um paquete
E seguiu para o Japão.

João Batista no Japão
Esteve seis meses somente
Gozando daquele império
Percorreu o Oriente
Depois voltou para a Grécia
Outro país diferente.

João Batista entrou na Grécia
Divertiu-se em passear
Comprou passagem de bordo
E quando ia embarcar
Ouviu um grego dizer
Acho bom se demorar.

João Batista interrogou:
– Amigo fale a verdade
por qual motivo o senhor
manda eu ficar na cidade?
Disse o grego: – Vai haver
Uma grande novidade.

– Mora aqui nesta cidade
um conde muito valente
mais soberbo do que Nero
pai de uma filha somente
é a moça mais bonita
que há no tempo presente

– É a moça em que eu falo
Filha do tal potentado
O pai tem ela escondida
Em um quarto de sobrado
Chama-se Creuza e criou-se
Sem nunca ter passeado.

– De ano em ano essa moça
bota a cabeça de fora
para o povo adorá-la
no espaço de uma hora
para ser vista outra vez
tem um ano de demora.

O conde não consentiu
Outro homem educá-la
Só ele como pai dela
Teve o poder de ensiná-la
E será morto o criado
Que dela ouvir a fala.

Os estrangeiros têm vindo
Tomarem conhecimento
Amanhã quando ela aparece
No grande ajuntamento
É proibido pedir-se
A mão dela em casamento.

Então disse João Batista
– Agora vou me demorar
pra ver essa condessa
estrela desse lugar
quando eu chegar à Turquia
tenho muito o que contar.

Logo no segundo dia
Creuza saiu na janela
Os fotógrafos se vexaram
Tirando o retrato dela
Quando inteirou uma hora
Desapareceu a donzela.

João Batista viu depois
Um retratista vendendo
Alguns retratos de Creuza
Vexou-se e foi dizendo:
– Quanto quer pelo retrato
porque comprá-lo pretendo.

O fotógrafo respondeu:
– Lhe custa um conto de réis
João Batista ainda disse:
– Eu compro até por dez
se o dinheiro não der
empenharei os anéis.

João Batista voltou
Da Grécia para a Turquia
E quando chegou em Meca
Cidade em que residia
Seu mano Evangelista
Banqueteou o seu dia.

Então disse Evangelista:
– Meu mano vá me contando
se viste coisas bonitas
onde andaste passeando
o que me traz de presente
vá logo entregando.

Respondeu João Batista:
– Para ti trouxe um retrato
de uma condessa da Grécia
moça que tem fino trato
custou-me um conto de réis
ainda achei muito barato.

Respondeu Evangelista
Depois duma gargalhada:
- Neste caso meu irmão
pra mim não trouxe nada
pois retrato de mulher
é coisa bastante usada.

- Sei que tem muitos retratos
mas como o que eu trouxe não
vais agora examiná-lo
entrego em tua mão
quando vires a beleza
mudará de opinião.

João Batista retirou
O retrato de uma mala
Entregou ao rapaz
Que estava de pé na sala
Quando ele viu o retrato
Quis falar tremeu a fala.

Evangelista voltou
Com o retrato na mão
Tremendo quase assustado
Perguntou ao seu irmão
Se a moça do retrato
Tinha aquela perfeição.

Respondeu João Batista
- Creuza é muito mais formosa
do que o retrato dela
em beleza é preciosa
tem o corpo desenhado
por uma mão milagrosa.

João Batista perguntou
Fazendo ar de riso:
- Que é isso, meu irmão
queres perder o juízo?
Já vi que este retrato
Vai te causar prejuízo.

Respondeu Evangelista
- Pois meu irmão eu te digo
vou sair do país
não posso ficar contigo
pois a moça do retrato
deixou-me a vida em perigo.

João Batista falou sério:
- Precipício não convém
de que te serve ir embora
por este mundo além
em procura de uma moça
que não casa com ninguém.

- Teu conselho não me serve
estou impressionado
rapaz sem moça bonita
é um desaventurado
se eu não me casar com Creuza
findo meus dias enforcado.

- Vamos partir a riqueza
que tenho a necessidade
dá balanço no dinheiro
porque eu quero a metade
o que não posso levar
dou-te de boa vontade.

Deram o balanço no dinheiro
Só três milhões encontraram
Tocou dois a Evangelista
Conforme se combinaram
Com relação ao negócio
Da firma se desligaram.

Despediu-se Evangelista
Abraçou o seu irmão
Chorando um pelo outro
Em triste separação
Seguindo um para a Grécia
Em uma embarcação.

Logo que chegou na Grécia
Hospedou-se Evangelista
Em um hotel dos mais pobres
Negando assim sua pista
Só para ninguém saber
Que era um capitalista.

Ali passou oito meses
Sem se dar a conhecer
Sempre andando disfarçado
Só para ninguém saber
Até que chegou o dia
Da donzela aparecer.

Os hotéis já se achavam
Repletos de passageiros
Passeavam pelas praças
Os grupos de cavalheiros
Havia muito fidalgos
Chegado dos estrangeiros.

As duas horas as tarde
Creuza saiu à janela
Mostrando a sua beleza
Entre o conde e a mãe dela
Todos tiraram o chapéu
Em continência à donzela.

Quando Evangelista viu
O brilho da boniteza
Disse: - Vejo que meu mano
Quis me falar com franqueza
Pois esta gentil donzela
É rainha de beleza.

Evangelista voltou
Aonde estava hospedado
Como não falou com a moça
Estava contrariado
Foi inventar uma idéia
Que lhe desse resultado.

No outro dia saiu
Passeando Evangelista
Encontrou-se na cidade
Com um moço jornalista
Perguntou se não havia
Naquela praça um artista.

Respondeu o jornalista:
- Tem o doutor Edmundo
na rua dos Operários
é engenheiro profundo
para inventar maquinismo
é ele o maior do mundo.

Evangelista entrou
Na casa do engenheiro
Falando em língua grega
Negando ser estrangeiro
Lhe propôs um bom negócio
Lhe oferecendo dinheiro.

Assim disse Evangelista:
- Meu engenheiro famoso
primeiro vá me dizendo
se não é homem medroso
porque eu quero custar
um negócio vantajoso

Respondeu-lhe Edmundo
- Na arte não tenho medo
mas vejo que o amigo
quer um negócio em segredo
como precisa de mim
conte-me lá o enredo.

- Eu amo a filha do conde
a mais formosa mulher
se o doutor inventar
um aparelho qualquer
que eu possa falar com ela
pago o que o senhor quiser.

– Eu aceito o seu contrato
mas preciso lhe avisar
que eu vou trabalhar seis meses
o senhor vai esperar
é obra desconhecida
que agora vou inventar.

– Quer o dinheiro adiantado?
Eu pago neste momento
– Não senhor, ainda é cedo
quando terminar o invento
é que eu digo o preço
quanto custa o pagamento.

Enquanto Evangelista
Impaciente esperava
O engenheiro Edmundo
Toda noite trabalhava
Oculto em sua oficina
E ninguém adivinhava.

O grande artista Edmundo
Desenhou nova invenção
Fazendo um aeroplano
De pequena dimensão
Fabricado de alumínio
Com importante armação.

Movido a motor elétrico
Depósito de gasolina
Com locomoção macia
Que não fazia buzina
A obra mais importante
Que fez em sua oficina.

Tinha cauda como leque
As asas como pavão
Pescoço, cabeça e bico
Lavanca, chave e botão
Voava igualmente ao vento
Para qualquer direção.

Quando Edmundo findou
Disse a Evangelista:
— Sua obra está perfeita
ficou com bonita vista
o senhor tem que saber
que Edmundo é artista.

— Eu fiz o aeroplano
da forma de um pavão
que arma e se desarma
comprimindo em um botão
e carrega doze arroba
três léguas acima do chão.

Foram experimentar
Se tinha jeito o pavão
Abriram a lavanca e chave
Encarcaram num botão
O monstro girou suspenso
Maneiro como balão.

O pavão de asas abertas
Partiu com velocidade
Coroando todo o espaço
Muito acima da cidade
Como era meia noite
Voaram mesmo à vontade.

Então disse o engenheiro:
— Já provei minha invenção
fizemos a experiência
tome conta do pavão
agora o senhor me paga
sem promover discussão.

Perguntou Evangelista:
— Quanto custa o seu invento?
— Dê me cem contos de réis
acha caro o pagamento
o rapaz lhe respondeu:
Acho pouco dou duzentos.

Edmundo ainda deu-lhe
Mais uma serra azougada
Que serrava caibro e ripa
E não fazia zuada
Tinha os dentes igual navalha
De lâmina bem afiada.

Então disse o jovem turco:
— Muito obrigado fiquei
do pavão e dos presentes
para lutar me armei
amanhã a meia-noite
com Creuza conversarei.

À meia-noite o pavão
Do muro se levantou
Com as lâmpadas apagadas
Como uma flecha voou
Bem no sobrado do conde
Na cumeeira pousou.

Evangelista em silêncio
Cinco telhas arredou
Um buraco de dois palmos
Caibros e ripas serrou
E pendurado numa corda
Por ela escorregou.

Chegou no quarto de Creuza
Onde a donzela dormia
Debaixo do cortinado
Feito de seda amarela
E ele para acordá-la
Pôs a mão na testa dela.

A donzela estremeceu
Acordou no mesmo instante
E viu um rapaz estranho
De rosto muito elegante
Que sorria para ela
Com um olhar fascinante.

Então Creuza deu um grito:
— Papai um desconhecido
entrou aqui no meu quarto
sujeito muito atrevido
venha depressa papai
pode ser algum bandido.

O rapaz lhe disse: — Moça
Entre nós não há perigo
Estou pronto a defendê-la
Como um verdadeiro amigo
Venho é saber da senhora
Se quer casar-se comigo.

De um lenço enigmático
Que quando Creuza gritava
Chamando o pai dela
Então o moço passava
Ele no nariz da moça
Com isso ela desmaiava.

O jovem puxou o lenço
Ao nariz da moça encostou
Deu uma vertigem na moça
De repente desmaiou
E ele subiu na corda
Chegando em cima tirou.

Ajeitou os caibros e ripas
E consertou o telhado
E montando em seu pavão
Voou bastante vexado
Foi esconder o aparelho
Aonde foi fabricado.

O conde acordou aflito
Quando ouviu essa zuada
Entrou no quarto da filha
Desembainhou a espada
Encontrou-a sem sentido
Dez minutos desmaiada.

Percorreu todos os cantos
Com a espada na mão
Berrando e soltando pragas
Colérico como um leão
Dizendo: — Aonde encontrá-lo
Eu mato esse ladrão.

Creuza disse: — Meu pai
Pois eu vi neste momento
Um jovem rico e elegante
Me falando em casamento
Não vi quando ele encantou-se
Porque me deu um passamento.

Disse o conde: — Nesse caso
Tu já estás a sonhar
Moça de dezoito anos
Já pensando em se casar
Se aparecer casamento
Eu saberei desmanchar.

Evangelista voltou
Às duas da madrugada
Assentou seu pavão
Sem que fizesse zuada
Desceu pela mesma trilha
Na corda dependurada.

E Creuza estava deitada
Dormindo o sono inocente
Seus cabelos como um véu
Que enfeitava puramente
Como um anjo de terreal
Que tem lábios sorridentes.

O rapaz muito sutil
Foi pegando na mão dela
Então a moça assustou-se
Ele garantiu a ela
Que não eram malfazejos:
— Não tenha medo donzela.

A moça interrogou-o
Disse: — Quem é o senhor
Diz ele: — Sou estrangeiro
Lhe consagrei grande amor
Se não fores minha esposa
A vida não tem valor.

Mas Creuza achou impossível
O moço entrar no sobrado
Então perguntou a ele
De que jeito tinha entrado
E disse: — Vai me dizendo
Se és vivo ou encantado.

Como eu lhe tenho amizade
Me arrisco fora de hora
Moça não me negue o sim
A quem tanto lhe adora!
Creuza aí gritou: — Papai
Venha ver o homem agora.

Ele passou-lhe o lenço
Ela caiu sem sentido
Então subiu na corda
Por onde tinha descido
Chegou em cima e disse:
— O conde será vencido.

Ouviu-se tocar a corneta
E o brado da sentinela
O conde se dirigiu
Para o quarto da donzela
Viu a filha desmaiada
Não pode falar com ela.

Até que a moça tornou
Disse o conde: — É um caso sério
Sou um fidalgo tão rico
Atentado em meu critério
Mas nós vamos descobrir
O autor do mistério.

— Minha filha, eu já pensei
em um plano bem sagaz
passa essa banha amarela
na cabeça desse audaz
só assim descobriremos
esse anjo ou satanás.

— Só sendo uma visão
que entra neste sobrado
só chega à meia-noite
entra e sai sem ser notado
se é gente desse mundo
usa feitiço encantado.

Evangelista também
Desarmou seu pavão
A cauda, a capota, o bico
Diminuiu a armação
Escondeu o seu motor
Em um pequeno caixão.

Depois de sessenta dias
Alta noite em nevoeiro
Evangelista chegou
No seu pavão bem maneiro
Desceu no quarto da moça
A seu modo traiçoeiro.

Já era a terceira vez
Que Evangelista entrava
No quarto que a condessa
À noite se agasalhava
Pela força do amor
O rapaz se arriscava.

Com um pouco a moça acordou
Foi logo dizendo assim:
— Tu tens dito que me amas
com um bem-querer sem fim
se me amas com respeito
te senta juntos de mim.

Evangelista sentou-se
Pôs-se a conversar com ela
Trocando o riso esperava
A resposta da donzela
Ela pôs-lhe a mão na testa
Passou a banha amarela.

Depois Creuza levantou-se
Com vontade de gritar
O rapaz tocou-lhe o lenço
Sentiu ela desmaiar
Deixou-a com uma síncope
Tratou de se retirar.

E logo Evangelista
Voando da cumeeira
Foi esconder seu pavão
Nas folhas de uma palmeira
Disse: — Na quarta viagem
Levo essa estrangeira.

Creuza então passou o resto
Da noite mal sossegada
Acordou pela manhã
Meditava e cismada
Se o pai não perguntasse
Ela não dizia nada.

Disse o conde: — Minha filha
Parece que estás doente?
Sofreste algum acesso
Porque teu olhar não mente
O tal rapaz encantado
Te apareceu certamente.

E Creuza disse: — Papai
Eu cumpri o seu mandado
O rapaz apareceu-me
Mas achei-o delicado
Passei-lhe a banha amarela
E ele saiu marcado.

O conde disse aos soldados
Que a cidade patrulhassem
Tomassem os chapéus de
Quem nas ruas encontrassem
Um de cabelo amarelo
Ou rico ou pobre pegassem.

Evangelista trajou-se
Com roupa de alugado
Encontrou-se com a patrulha
O seu chapéu foi tirado
Viram o cabelo amarelo
Gritaram: — Esteja intimado!

Os soldados lhe disseram:
— Cidadão não estremeça
está preso a ordem do conde
e é bom que não se cresça
vai a presença do conde
se é homem não esmoreça.

— Você hoje vai provar
por sua vida responde
como é que tem falado
com a filha do nosso conde
quando ela lhe procura
onde é que se esconde.

Evangelista respondeu:
— Também me faça um favor
enquanto vou me vestir
minha roupa superior
na classe de homem rico
ninguém pisa meu valor.

Disseram: — Pode mudar
Sua roupa de nobreza
A moça bem que dizia
Que o rapaz tinha riqueza
Vamos ganhar umas luvas
E o conde uma surpresa.

Seguiu logo Evangelista
Conversando com o guarda
Até que se aproximaram
Duma palmeira copada
Então disse Evangelista:
— Minha roupa está trepada.

E os soldados olharam
Em cima tinha um caixão
Mandaram ele subir
E ficaram de prontidão
Pegaram a conversar
Prestando pouca atenção.

Evangelista subiu
Pôs um dedo no botão
Seu monstro de alumínio
Ergueu logo a armação
Dali foi se levantando
Seguiu voando o pavão.

E os soldados gritaram:
— Amigo, o senhor se desça
deixe de tanta demora
é bom que não aborreça
senão com pouco uma bala
visita sua cabeça.

Então mandaram subir
Um soldado de coragem
Disseram: — Pegue na perna
Arraste com a folhagem
Está passando na hora
De voltarmos da viagem.

Quando o soldado subiu
Gritou: — Perdemos a ação
Fugiu o moço voando
De longe vejo um pavão
Zombou de nossa patrulha
Aquele moço é o cão.

Voltaram e disseram ao conde
Que o rapaz tinham encontrado
Mas no olho de uma palmeira
O moço tinha voado
Disso o conde: — Pois é o cão
Que com Creuza tem falado.

Creuza sabendo da história
Chorava de arrependida
Por ter marcado o rapaz
Com banha desconhecida
Disse: — Nunca mais terei
Sossego na minha vida.

Disse Creuza: — Ora papai
Me prive da liberdade
Não consente que eu goze
A distração da cidade
Vivo como criminosa
Sem gozar a mocidade.

— Aqui não tenho direito
de falar com um criado
um rapaz para me ver
precisa ser encantado
mas talvez ainda eu fuja
deste maldito sobrado.

— O rapaz que me amou
só queria vê-lo agora
para cair nos seus pés
como uma infeliz que chora
embora que eu depois
morresse na mesma hora.

— Eu sei que para ele
não mereço confiança
quando ele vinha aqui
ainda eu tinha esperança
de sair desta prisão
onde estou desde de criança.

Às quatro da madrugada
Evangelista desceu
Creuza estava acordada
Nunca mais adormeceu
A moça estava chorando
O rapaz lhe apareceu.

O jovem cumprimentou-a
Deu-lhe um aperto de mão
A condessa ajoelhou-se
Para pedir-lhe perdão
Dizendo: — Meu pai mandou
Eu fazer-te uma traição.

O rapaz disse: — Menina
A mim não fizeste mal
Toda a moça é inocente
Tem seu papel virginal
Cerimônia de donzela
É uma coisa natural.

— Todo o seu sonho dourado
é fazer-te minha senhora
se quiseres casar comigo
te arrumas e vamos embora
senão o dia amanhece
e se perde a nossa hora.

— Se o senhor é homem sério
e comigo quer casar
pois tome conta de mim
aqui não quero ficar
se eu falar em casamento
meu pai manda me matar.

— Que importa que ele mande
tropas e navios pelos mares
minha viagem é aérea
meu cavalo anda nos ares
nós vamos sair daqui
casar em outros lugares.

Creuza estava empacotando
O vestido mais elegante
O conde entrou no quarto
E dando um berro vibrante
Gritando: — Filha maldita
Vais morrer com o seu amante.

O conde rangendo os dentes
Avançou com passo extenso
Deu um pontapé na filha
Dizendo: — Eu sou quem venço
Logo no nariz do conde
O rapaz passou o lenço.

Ouviu-se o baque do conde
Porque rolou desmaiado
A última cena do lenço
Deixou-o magnetizado
Disse o moço: -Tem dez minutos
Para sairmos do sobrado.

Creuza disse: — Eu estou pronta
Já podemos ir embora
E subiram pela corda
Até que sairam fora
Se aproximava a alvorada
Pela cortina da aurora.

Com pouco o conde acordou
Viu a corda pendurada
Na coberta do sobrado
Distinguiu uma zuada
E as lâmpadas do aparelho
Mostrando luz variada.

E a gaita do pavão
Tocando uma rouca voz
O monstro de olho de fogo
Projetando os seus faróis
O conde mandando pragas
Disse a moça: — É contra nós.

Os soldados da patrulha
Estavam de prontidão
Um disse: — Vem ver fulano
Aí vai passando um pavão
O monstro fez uma curva
Para tomar direção.

Então dizia um soldado
— Orgulho é uma ilusão
um pai governa uma filha
mas não manda no coração
pois agora a condessinha
vai fugindo no pavão.

O conde olhou para a corda
E o buraco do telhado
Como tinha sido vencido
Pelo rapaz atilado
Adoeceu só de raiva
Morreu por não ser vingado.

Logo que Evangelista
Foi chegando na Turquia
Com a condessa da Grécia
Fidalga da monarquia
Em casa do seu irmão
Casaram no mesmo dia.

Em casa de João Batista
Deu-se grande ajuntamento
Dando vivas ao noivado
Parabéns ao casamento
À noite teve retreta
Com visita e cumprimento.

Enquanto Evangelista
Gozava imensa alegria
Chegava um telegrama
Da Grécia para Turquia
Chamando a condessa urgente
Pelo motivo que havia.

Dizia o telegrama:
"Creuza vem com o teu marido
receber a tua herança
o conde é falecido
tua mãe deseja ver
o genro desconhecido."

A condessa estava lendo
Com o telegrama na mão
Entregou a Evangielista
Que mostrou ao seu irmão
Dizendo: — Vamos voltar
Por uma justa razão.

De manhã quando os noivos
Acabaram de almoçar
E Creuza em traje de noiva
Pronta para viajar
De palma, véu e capela
Pois só vieram casar.

Diziam os convidados:
— A condessa é tão mocinha
e vestida de noiva
torna-se mais bonitinha
está com um buquê de flor
séria como uma rainha.

Os noivos tomaram assento
No pavão de alumínio
E o monstro se levantou-se
Foi ficando pequenino
Continuou o seu vôo
Ao rumo do seu destino.

Na cidade de Atenas
Estava a população
Esperando pela volta
Do aeroplano pavão
Ou o cavalo do espaço
Que imita um avião.

Na tarde do mesmo dia
Que o pavão foi chegado
Em casa de Edmundo
Ficou o noivo hospedado
Seu amigo de confiança
Que foi bem recompensado.

E também a mãe de Creuza
Já esperava vexada
A filha mais tarde entrou
Muito bem acompanhada
De braço com o seu noivo
Disse: — Mamãe estou casada.

Disse a velha: — Minha filha
Saíste do cativeiro
Fizeste bem em fugir
E casar no estrangeiro
Tomem conta da herança
Meu genro é meu herdeiro.