Poiésis

terça-feira, maio 04, 2010

Resenha Crítica do filme O Leitor

Resenha Crítica dentro de uma abordagem que envolve aspectos relativos à ética , à moral e à conduta da sociedade alemã ante aos campos de concentração nazista.

Filme: O Leitor
(The Reader. Alemanha, EUA, 2008)


O filme “O Leitor”, de Stephen   Daldry, se baseia no livro de Bernhard Schlink e remonta a Alemanha destruída moral, ética e politicamente após alguns anos da Segunda Guerra Mundial. O longa narra a história de um adolescente, Michel Berg, que se apaixona quase que obsessivamente por Hanna Schmitz, uma mulher vinte anos mais velha e que, misteriosamente, desaparece de repente de sua vida. Anos mais tarde, ele a reencontra em um tribunal, no banco dos réus, e descobre que ela, a mulher que ele tanto amara, participou de vários  crimes de guerras contra os  judeus nos campos de concentração,   em    Auschwitz.
“O Leitor” se faz intrigante e envolvente por ressaltar alguns aspectos que irão de encontro à ética, à moral e à vergonha diante de um processo que revisará os crimes cometidos no Terceiro Reich: o julgamento de alguns soldados nazistas parece levantar uma poeira já assentada com o tempo e que permeia toda a sociedade alemã diante das atrocidades cometidas no governo de Hitler.

Julgar? Julgar os soldados ou carrascos de uma geração cuja sociedade se serviu desses mesmos guardas e algozes, e que nada fizeram por acreditar no legado de um tirano? Condenar tais algozes não seria o mesmo que condenar também tios, pais que participaram de forma indireta em tal governo? Não seria também o mesmo que se condenar a mesma vergonha, uma vez sendo “filhos” dessa geração anterior?   Existiria,  realmente,  algum  código  moral  e   ético  capaz   de   resolver tais   questões?
Outro fato interessante, presente no drama, está relacionado ao amor e a piedade, e fica uma ou várias perguntas implícitas no filme: Até que ponto pode-se amar alguém quando se descobre que essa mesma pessoa participou de uma das grandes atrocidades já cometidas no mundo atual? E Hanna seria de fato culpada ou inocente por se filiar a SS, ainda que sem saber do que realmente se tratava ? Cabe a cada interlocutor tal reflexão.

São essas, dentre outras, as muitas perguntas que fazem do filme um grande sucesso, por ir de encontro às muitas feridas narcísicas que envolveram e ainda envolvem a sociedade alemã; uma geração que, hoje em dia, mesmo não tendo participado desse passado, ainda assim se encontra debaixo de uma sombra que perpassa o tempo e surpreende por saber que, infelizmente, a história dos campos de concentração não foi uma mera ficção.

Stephen Daldry aborda a temática dos campos nazista de um modo diferente de como é tratado em muitos documentários e revista, os quais, em sua maioria, costumam atribuir grande relevância aos atos criminosos. Nesse sentido, “O Leitor”, foge um pouco dessa perspectiva há muito tempo narrada, nos permitindo, com isso, avaliar e pensar de forma crítica sobre uma sociedade que também fora participante de tal barbárie ao atribuir poder, apoiar e contribuir de forma significativa com os muitos ditadores que abalaram o mundo e causaram tamanha ferida na História mundial.


Dados do Filme:

titulo original: (The Reader)
lançamento: 2008 (Alemanha) (EUA)
direção: Stephen Daldry
atores: Ralph Fiennes , David Kross , Jeanette Hain , Kate Winslet , 
duração: 124 min
gênero: Drama

Sinopse:

A sociedade acredita que é guiada pela moralidade mas isto não é verdade. O premiado diretor de As Horas, Stephen Daldry, mostra novamente toda sua força nesta história de medos e segredos escondidos pelo tempo. Hanna (Kate Winslet) foi uma mulher solitária durante grande parte da vida. Quando se envolve amorosamente com o adolescente Michael (Ralph Finnes)não imagina que um caso de verão irá marcar suas vidas para sempre. Livro com sucesso mundial de vendas, O Leitor é a uma história que nos levará a questionar todas as nossas mais profundas verdades.



9 comentários:

Lohan Lage Pignone disse...

Gostei da sua resenha, Si, apesar de achar que você poderia ter desenvolvido muito mais! Nas nossas conversas vc citou lances interessantíssimos que ficaram de fora de sua resenha.
Ficou, em parte, diferente da minha;
Mesmo assim, vc foi sintética, e isso é uma qualidade, ainda mais para nós, que costumamos ''viajar'' demais na maionese, rs.

Parabéns, bjs, Lohan.

Andrea Amaral disse...

Muito interessante perceber como a sua abordagem foi completamente diferente da resenha do Lohan, embora, no contexto principal da temática, ambos falem quase a mesma coisa com outras palavras. Também acho que você foi um pouco "econômica" nas suas palavras. Deixo a sugestão de que você desenvolva os tantos questionamentos que a leitura deste filme nos permite, com outros textos específicos.
Também percebi que a visão de Lohan destoa da sua no que se refere ao lado romanceado do filme. concordo com você que o Michel realmente tenha se apaixonado por ela e que não tenha conseguido superar o trauma de um final não acabado. Afinal, ela sumiu da vida dele deixando um abismo de dúvidas, frustrações, esperanças esvaziadas de um menino que está descobrindo seu corpo, a vida, o mundo.
Acredito que ela também tenha percebido que ele estava se tornando mais importante do que ela jamais poderia supor, já que seu coração era frio por tanta falta de emotividade criada através de um mundo que se abre a nossa frente quando temos certas oportunidades de pensar, refletir e escolher (justamente o que cabe a educação), coisa que lhe foi dispensada. Ao mesmo tempo, ser cúmplice indireta e imposta por um regime cruel em suas atrocidades trouxeram à ela uma frieza que se cria como uma capa, pois ela não poderia se dar ao "luxo" de ser humana, e assim sua vida prosseguiu: limitada culturalmente, morta emocionalmente e viva através de práticas sexuais com jovens prisioneiras, relatadas em seu julgamento, o que nos induz a pensar que no fundo, ela possuía dentro de si mesma o prazer sádico de que se valem aqueles cujo destino é o de se tornarem carrascos. Portanto, a questão que me perturba é ( entre tantas que são feitas): será que o analfabetismo em si, tenha sido o suficiente para que ela se integrasse aquele papel? Inicialmente ela foi forçada a isso, mas, por pior que possa ser o nosso destino, será que se ela fosse mais humana, ela não poderia ter optado por ter sido menos cruel com suas vítimas? Se falta de educação fosse a explicação mais óbvia para se trilhar o que consideramos anti-ético, poderíamos partir então da premissa de que todo analfabeto, pobre, negro ou favelado, deveriam ser criminosos natos. E não é isso que vemos. Aliás, hoje em dia, é mais comum observarmos esses sinais de sadismo e crueldade entre os considerados parte de uma maioria culta.
Acabei escrevendo um texto no seu blog, de tão empolgada fiquei! Desculpe, Simone.
Como já disse, seu blog está maravilhoso. Beijos e parabéns pelo texto.

Lohan Lage Pignone disse...

Andréa, também adorei seu texto, rs. Mas faço uma ressalva: em toda regra há exceção, e, apesar de muitos cultos agirem de forma sádica, o que costuma se observar também são os índices de criminalidade inerentes às camadas mais desprovidas de qualidade de vida, saber, etc. Não está ligado a etnia, de maneira alguma; criou-se um mito devido a expansão das favelas ter-se dado a partir dos escravos libertos; e o que mais vimos (vimos o que a mídia nos empurra, vale lembrar), que o crime, as drogas e tudo mais desse nível advém das favelas. E lá habitam, em sua maioria, negros.
Infelizmente, sofrem por essa falta de oportunidades que não cabe dizer aqui, para que não se torne um testamento, rs.
Creio sim que isso influi muito diretamente na criminalidade, pois a educação é a principal ação transformadora da sociedade.

Simone Prado disse...

Não tem do que se desculpar Andrea, as suas observações descritas no seu comentário só vêm acrescentar ainda mais informações preciosas ao texto. Pode se empolgar sim, quantas vezes quiser (rs); igualmente ao comentário de Lohan. Sintam-se a vontade quanto a esse espaço no blog! Um beijão no coração de vocês.
Si.

Andréa Amaral disse...

Si, assisti ontem um filme que tem tudo a ver com "O leitor", sobre esta questão ética/ cultural sobre o sadismo: o nome do filme é "O lavador de almas". Fala sobre a vida de um carrasco (baseado em fatos reais). Ele cometeu 608 enforcamentos de presos condenados pela lei. Muiiiito interessante. Vou tentar gravá-lo para nós. Beijos.

Simone Prado disse...

Ótima dica de filme para dialogar com “O Leitor”! Estava lendo sobre ele e, realmente, parece ser muito interessante! Pode gravar que estou dentro!(rs) Bjs!

Simone Prado disse...

Para quem deseja baixar o filme "O Leitor" pelo programa Torrent, eis o site : http://baudosdownloads.blogspot.com/2009/01/o-leitor-reader-2008-dvdscr.html.
Um abraço!

Anônimo disse...

Muito bom! Mas não intitule de resenha, pois não é; é apenas um comentário crítico a respeito do filme.
Pesquise sobre o modelo de uma resenha crítica e verás o que de fato é uma.
Abraços

Kelly Sobral disse...

òtima resenha. Esse filme me faz pensar no perigo da inconsciência principalmente na profissão policial, mas em todas, onde simplesmente se pensa que se tem que seguir ordens...o perigo e as atrocidades que fazemos em maior ou menor grau por isso. Trabalhar em tntaos cargos em empresas privadas, bancos, e outras podem não matar mas ser muito atroses...