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domingo, maio 24, 2015

La force des choses (Fragmento sobre a velhice)


La force des choses
(fragmento sobre a velhice, na obra de Simone de Beauvoir)


[...] No fundo deste espelho, a velhice me espreita [...] Ela me tem. Muitas vezes me detenho, ofuscada, diante desta incrível coisa que é o meu rosto. Compreendo Castiglione que tinha quebrado todos os espelhos [...] Vejo meu antigo rosto onde se instalou uma doença da qual não vou me curar. [...] A velhice me infecta também o coração [...] A morte não é mais, na distância, uma aventura brutal; ela obceca meu sono; acordada, sinto sua sombra entre o mundo e mim mesma: ela já começou. (Beauvoir, 1963, p.198)























Foto de Pierre Louis Pierson: Condessa de Castiglione
Película," La Contesse Castiglione"
Postagem sobre: "Espelho meu: A Condessa de Castiglione"



quinta-feira, novembro 18, 2010

Resenha crítica de Mary and Max . Adam Elliot (Entrevista)

Olá, caros leitores! Tudo bem? Aceitam uma dica de uma jóia rara da sétima arte?! Então, sabe aquele filme que, quando terminamos de ver, dá uma tristeza por ter chegado ao fim e saudade logo depois? Saudades principalmente daqueles olhos de “poças de lama”? É assim que me senti.

Sugerido por um amigo, agradeço-o imensamente a indicação de tão preciosa pérola em forma de película: The amazing friendship – Mary and Max. Uns os consideram e chamam de “Uma amizade diferente”, eu prefiro levar a palavra inglesa ao pé da letra em sua tradução, e acho que combina perfeitamente para esses dois personagens como uma amizade maravilhosa ou surpreendente. Dois adjetivos que caracterizam de forma sem igual a amizade deles, como também reflete essa emocionante produção escrita e dirigida por Adam Elliot. Outra coisa, logo abaixo desse texto, deixei um link referente a uma entrevista concedida por Elliot sobre a produção e a história verídica do personagem Max.


Excelente filme a meu ver? Sim, claro! É interessante a forma e o modo profundamente sensível e real de como é abordado alguns dilemas do ser humano como a solidão, a amizade, a culpa, e por aí vai.
Baseado numa história verídica, o longa narra a vida de duas pessoas um tanto “diferente” perante a sociedade, cujo destino se incumbiu de fazerem se conhecer, ainda que por cartas longínquas.
Ele, Max, um judeu que possui síndrome de Asperger, 44 anos, morava em Nova York, pesava 160 quilos e participava dos “ Gordinhos anônimos”. Ele também possuía um sonho, morar na Lua só para não ter contato com as pessoas. Ela, Mary, mora na Autrália. Uma menina solitária, não possuía a atenção e o amor dos pais, gordinha e de oito anos de idade. Seu único amigo era um galo. Sua mãe, Vera , um tanto desestruturada emocionalmente, bebe e fuma em demasia. Se referia a Mary  como sendo “ um acidente”.




Meus Deus!!! Olha só essa personagem! Linda, não? Um charme, vocês não acham??!! Que figura! Vera Lorraine Dinkle foi simplesmente demais!!! Impossível conter o riso com suas caras e bocas maravilhosas. Excelente!

Através de uma linguagem simples, o longa chama a atenção para os relacionamentos humanos, a força e a beleza das amizades. E que estas não sejam tão superficiais e nem repletas de interesses e falsidades. É também a oportunidade de conviver com a diferença do outro e respeitá-lo, pois ninguém  é perfeito. Vejo a amizade como  uma construção permanente, algo recíproco, uma doação contínua ainda que diante de alguns “defeitos”. E quem não os tem?

“ A razão de eu te perdoar é que você é imperfeita. E eu também...”
( Uma das cartas escrita por Max para Mary)

Com relação às cores que envolvem a produção cinematográfica, algumas delas me chamaram atenção: Mary adorava a cor marrom, era a sua cor preferida e quase tudo que envolvia essa personagem era de tons marrons. Também porque os personagens do The Nobllets, seu programa favorito, possuíam muitos amigos e eram todos marrons.
Max, as cores que permeiam esse personagem era os tons pretos, cinza e o branco, refletindo o mundo que ele considerava caótico. Achei interessante ao perceber os tons, digamos , coloridos, que simbolizava amor e afeto para com Max; na verdade, um pouco de vida que Mary depositava em Max aos poucos: como o pompom de cor vermelha que ficava em cima do solidéu, além da imagem de cores alaranjadas de Mary desenhada por ela mesma e dado a ele de presente. Cores que entravam em contraste com o preto e branco sem fim de Max. São, creio eu, as únicas cores simbólicas que demonstravam que o mundo, para Max, parecia não se mais tão caótico assim.

Outra coisa interessante, a imagem que Mary projetou de si mesma para enviar ao amigo. No desenho- apesar dela ser uma menina um tanto melancólica e solitária- ela sorri e, acima da cabeça, ela desenhou um sol. Claro, apesar de tudo que ela vivia, tanto na escola como com os pais, naquele momento, ela encontrou um motivo suficiente que a fez expressar-se de tal forma.



Duas cenas mais significantes para mim? O sofrimento de Mary pelo amigo que ela acreditava ter perdido ( chorei muito nessa hora, cruz credo!! ) e o presente, a solução prática e rápida que Mary enviou para o seu amigo que não sabia chorar corretamente.

A beleza desses dois personagens se encontra, dentre outros, na ingenuidade e de não esconder ou manipular aquilo que se passa dentro deles, algo sem limites e sem medo de expor e se expor.

Mary: “Querido Max. Eu tenho oito anos. Seria ótimo se você pudesse ser meu amigo”

Max: “O Dr. Bernard Hazelhof disse que se eu estivesse em uma ilha deserta então eu teria que me acostumar com minha própria companhia – apenas eu e os cocos. Disse que eu teria que me aceitar, com meus defeitos e tudo mais, e que não posso escolher meus defeitos. Eles são parte de nós e temos que conviver com eles. Mas os amigos podemos escolher e estou feliz por ter escolhido você. [...] você é a minha melhor amiga. Minha única amiga.


Vale a pena conferir essa pérola. É um dos melhores filmes que já assisti. Enfim, é isso!
Um abração!



Deus nos dá familiares... Graças a Deus que podemos escolher nossos amigos.
( Mary and Max)


Trilha sonora de abertura:
A belíssima música , Perpetuum Móbile.
Composição de The Penguin Cafe Orchestra

Dados do Filme:
Direção: Adam Elliot
Roteiro: Adam Elliot
Origem: Austrália
Duração: 80 minutos
Tipo: Longa-metragem

Leia também: Entrevista com Adam Elliot

quinta-feira, junho 24, 2010

Resenha crítica do filme "Entre os muros da escola ".

Resenha Crítica dentro de uma abordagem que envolve aspectos relativos à prática pedagógica, à globalização, questões da área cognitiva e afetiva na relação professor-aluno.



Resenha crítica do filme “Entre os muros da escola”.
(Entre les Murs, França- 2007.)



     O filme “Entre os muros da escola”, de Lautet Cantet, nos remete aos muitos aspectos conflitantes vividos em uma escola pública localizada no subúrbio de Paris. Grande parte da ficção se passa dentro de uma sala de aula composta por alunos de treze a quinze anos de idade com diversos problemas de ordem política e, principalmente, social. É possível, também, perceber as diversidades étnicas ali inseridas, cujas culturas e diferenças que cada aluno trás consigo acirra ainda mais o conflito entre eles no que diz respeito ao preconceito de raça, de classe social, etnias, dentre outros.
 
     Observando o filme, e analisando a prática pedagógica adotada pelo personagem François, pode se verificar que o professor Marin se mostra comprometido e disposto a enfrentar, através do diálogo, os muitos desafios que irão surgindo por parte daquela turma indisciplinada, no intuído de transformar os vários questionamentos dos discentes num aprendizado através da reflexão crítica. Ou seja, ser um educador naquilo que envolve uma preocupação com a transformação social que, segundo Cipriano Luckesi, possui grande importância por promover mudanças na história. Trabalhar nos alunos o conhecimento e o hábito de se fazer uma reflexão críticas dos fatos a fim de obter mudanças no modo de pensar e não simples reprodução do senso-comum.

     Os muitos conflitos sociais e questionamentos por parte dos alunos de diferentes realidades presentes naquela sala de aula, uma vez suscitadas, François utiliza cada momento para reflexão e esclarecimento. O professor passa a ser o mediador daquela realidade conflitante para poder extrair algum conteúdo a fim de que seus alunos adquiram uma conscientização moral, ética e política na intenção de promover uma transformação social através da reflexão e debate. Portanto, o docente deve “caminhar junto, intervir o mínimo indispensável, embora não se furte, quando necessário, a fornecer uma informação sistematizada.” (Luckesi- 2002, p. 25)

     A didática pela qual o professor apresenta os conteúdos referente à língua francesa, logo no início do filme, é uma didática que podemos chamar de progressivista (centrada no aluno), estimulando a troca de conhecimentos e experiências por meio dos diálogos cujo antiautoritarismo e a valorização das experiências vividas pelos discentes se fazem presentes por parte do educador no intuito de fazê-los refletirem sobre a importância de se aprender a língua francesa, o respeito aos colegas de classe e suas etnias etc. Porém, diante da resistência dos alunos em não aceitar seus métodos pedagógicos, desprezarem a figura do professor e sua forma de trabalhar, a sua pedagogia de caráter progressivista parece se perder no decorrer do filme.

     Segundo Cipriano Luckesi em seu texto “O papel da didática na formação do educador”, o docente deve possuir um compromisso com o ensinar de forma a transformar as relações humanas através de um processo dialético transformador. Transformação essa que se baseia numa troca constante de saberes e experiências entre o professor e o aluno, pois “ensinamos e somos ensinados, numa interação contínua em todos os instantes de nossas vidas.” Isso deve ser refletido também dentro de sala de aula.

     O educador deve ter consciência da importância de seu papel na sociedade, naquilo que envolve as suas práticas educacionais no sentido de ser sujeito da história que, através de seu caminhar, construirá o conhecimento, respeito aos outros conhecimentos, desenvolvimento do pensamento ético, moral, político e humano em seus alunos.

     Ainda que todo esse esforço seja aproveitado de forma mínima pelos discentes, tal empenho se refletirá, quem sabe, em uma sociedade mais justa. É ter consciência de seu papel, ainda que seja árdua a tarefa, hoje em dia, do educador. Este, por sua vez, deve estar compromissado com o “fazer” a história, contribuindo por uma sociedade e educação melhor. É um desafio constante.

     Nesse sentido, diante desses aspectos acima citado, observa-se que o professor François se distancia, no decorrer do filme, aos poucos dessa pedagogia progressivista, desse compromisso de fazer a história e provocar mudanças devido à grande resistência dos alunos. Isso fará com que ele passe a adotar algumas atitudes semelhantes a prática pedagógica conservadora na tentativa de passar o conteúdo da disciplina, ou seja, o estudo da língua francesa.

     Apesar dele se mostrar disposto a esclarecer para os alunos a importância das aulas de literatura e a aprendizagem da conjugação dos verbos no imperfeito do subjuntivo, por exemplo, ele esbarra em muitos questionamentos dos discentes ante aqueles ensinos, portanto tais resistências por parte dos alunos farão com que o professor mude a sua postura de ensinar. Os conteúdos passam a ser transmitidos pelo professor não de forma a proporcionar a compreensão do porque daqueles verbos e conjugação, mas se caracterizando como uma transferência de um saber através do seu autoritarismo.

     Não é visto, por parte dele, no decorrer do filme, uma construção baseada na troca de conhecimentos como demonstrava no início, na intenção de entender e fazer os alunos refletirem. A sua prática pedagógica passa a centrar na transmissão do conhecimento que, muitas das vezes, quando contrariado, o professor Marin costumava impor sua opinião ou suscitar uma discussão que não levava a lugar algum; pelo contrário, irritava mais ainda os alunos, agravando a desmotivação deles, levando- os a discutirem e até brigarem em sala de aula.

     Infelizmente, houve uma falha da parte do personagem, pois tal atitude tende a aumentar ainda mais o processo de exclusão do aluno do conhecimento devido à falta de compreensão daquilo que está sendo ensinado e sua aplicabilidade.

     O personagem François começa com uma pedagogia progressivista, porém esta, por sua vez, passa a dar lugar a pedagogia mais conservadora diante das grandes dificuldades que o professor encontra naquele hostil ambiente escolar. Ele não é o “herói” que “salva” toda uma turma como muito já vimos nos filmes voltados para a educação, mas, também, não é o vilão por tais atitudes.
 
     No que concerne ao aspecto afetivo, o professor até tenta estabelecer algo; por exemplo, na conversa que ele possui com o Souleymane na tarefa do autoretrato, porém o aluno não crê naquela conversa, na atenção dispensada, achando que tal valorização da parte do professor fazia parte de um plano para que ele e os outros alunos fizessem a lição proposta. Teria esse questionamento por parte de Souleymane um fundo de verdade , ou não?

     Se ainda existia um fio mínimo de afeto por parte do professor, parece que tudo fora posto por terra, haja vista as muitas discussões em sala de aula e, mais tarde, com as duas alunas representantes de classe que, após terem mentindo sobre a conversa dos docentes no conselho de classe, provocou a ira do professor chamando-as de vagabundas. Ou seja, o que se pode tirar disso, dessa lição, é que o clima afetivo entre professor e aluno é muito importante para a construção da auto-estima e o desenvolvimento cognitivo, pois o processo de aprendizagem se dá através do relacionamento interpessoal forte entre ambos. Dependendo de como se dá essa relação afetiva, ela pode ser responsável pelo sucesso ou fracasso na aprendizagem. “Envolve estar atento ao aluno e se preocupar com o mesmo.” (Vera Candau- 2001- p. 14)

      Referente ao campo da cognição, à relação entre professor e aluno, no filme, envolvendo aspectos em sua dimensão humana, político e social, verifica-se que foi bastante prejudicada devido à resistência dos alunos em não aceitarem o ensino da língua francesa e as orientações e práticas pedagógicas do professor François. O professor até se esforça em fazer com que a turma aprenda a língua local e sua importância, porém é possível perceber que poucos foram os que aprenderam, e outros não aprenderam nada. Nesse sentido, entendo que a falta de afeto e a grande dificuldade de aceitação do professor François Marin, por parte do aluno, fizeram com que este profissional falhasse em seu papel de educador, e a sua autoridade como mestre vai aos poucos sendo abafada, dando lugar ao autoritarismo que passa a ser evidenciado em alguns de seus confrontos com os discentes diante da postura agressiva deles, como, por exemplo, o personagem problemático Souleymane e a aluna Khoumba, principais questionadores e rebeldes que desprezavam a autoridade do professor como um profissional da educação.

     Observa-se, portanto, o quão importante é o desenvolvimento afetivo-emocional professor /aluno para o desenvolvimento do cognitivo, pois o estímulo afetivo capacitará o aluno (se ele de fato quiser) a conhecer a si mesmo, promovendo a auto-estima e, como resultado, o aluno passará a se conhecer e situar-se melhor no mundo.

     Concernente a globalização e seus efeitos no campo da educação pública, de acordo com o filme, “Entre os muros da escola”, tende a aproximar vários países, idéias e culturas. Ou seja, a globalização cria paradigmas e seus efeitos passam a ditar isso ou aquilo que devemos fazer, pensar e perceber as coisas no mundo.

     Segundo Minayo (et all, 2001) , tudo se torna efêmero , descartável diante da agressiva conquista de mercado por meio do poder que possui e exerce a globalização, refletindo-se também no modo como as pessoas devem “perceber” e aceitar as coisas. Esse efeito é algo amplo e dinâmico no mundo atual, portanto o individualismo e tudo que se mostra diferente tende a ser amenizado para sobressair aspectos que devem ser comuns a todos: mesmo gosto, estilo, não importando qual lugar, país ou cultura. A homogeneização é o seu grande alvo. Dessa forma, o controle é mais fácil.
A educação, por sua vez, tende também a sofrer tais efeitos uma vez que ela não é neutra, mas, nem por isso, alienada.

     Se compararmos, é possível perceber no filme de Laurent Cantet uma aproximação com a Europa e a América Latina, com a sala de aula francesa e a brasileira, na atitudes, gostos, músicas, indisciplina, falta de respeito ante ao professor e, até mesmo, nos problemas dentro da classe como os muitos celulares ligados e tocando em plena aula. Tudo isso pode ser visto aqui no Brasil, por exemplo.

     Outro aspecto comum aos dois países ante a nossa realidade, hoje em dia, se encontra na dificuldade que os professores possuem em fazer o aluno perceber e entender o quão importante é a análise crítica daquilo que se mostra como “verdade”, ou seja, a realidade alienada e alienante na qual vivemos. Infelizmente, a falta de hábito de uma análise crítica das coisas encontra apoio na grande resistência por parte dos discentes; não só dos discentes, mas da população em sua grande maioria. A falta de leitura é uma das maiores contribuidoras para tal desinteresse.

     Portanto, eis um filme envolvente através de uma realidade tão próxima ao que se vive nas muitas escolas públicas hoje em dia. Filme para muitos debates sobre práticas pedagógicas, relacionamentos professor /aluno conturbados, ou não, vividos dentro de uma sala de aula.


Dados do Filme

Título original: Entre les Murs
Gênero: Drama
Ano de lançamento: França- 2007
Direção: Laurent Cantet
Roteiro:Laurent Cantet, François Bégaudeau e Robin Campillo, baseado em livro de François Bégaudeau

Sinopse


François Marin (François Bégaudeau) trabalha como professor de língua francesa em uma escola de ensino médio, localizada na periferia de Paris. Ele e seus colegas de ensino buscam apoio mútuo na difícil tarefa de fazer com que os alunos aprendam algo ao longo do ano letivo. François busca estimular seus alunos, mas o descaso e a falta de educação são grandes complicadores




  

sexta-feira, maio 21, 2010

Resenha crítica do filme A Voz do Coração

                                           


Resenha Crítica do filme “A voz do Coração”
(“Les Choristes” - França- 2004)



“A voz do coração”, filme de Christophe Barratier, reporta à França da década de 40 – mais precisamente em 1949, três anos após o término da 2ª Guerra Mundial-, fase em que muitas mulheres, no período do conflito bélico, sofreram abusos sexuais, violências físicas, psíquicas e muitos de seus maridos e filhos foram mortos nos combates. Resultado disso: muitas crianças nasceram fruto dos muitos estupros; outras foram abandonadas ou tiveram seus pais mortos; outras entregues ao internato, pois, diante da grande quantidade de homens mortos devido à guerra e a economia está em colapso, as mulheres tiveram que largar suas vidinhas domésticas e abrir mão da educação familiar de seus filhos; passaram a arregaçar as mangas nas fábricas caso não quisessem morrer de fome. Não faltou, nessa época, propagandas elegantes e cartazes convidativos incentivando o quão maravilhoso e honroso para o Estado era o trabalho feminino.

Diante disso, de todo esse contexto social, o filme narra a história dessas crianças órfãs, delinqüentes ou sem aparente futuro que vivem em uma instituição de ensino no qual, pode ser observado, não há uma preocupação com o ensinar, naquilo que envolve uma educação que capacite os alunos a refletirem os diversos assuntos de forma crítica, mudança de comportamento, assimilação de valores éticos e morais para se tornarem cidadãos de fato.

No colégio - se é que pode chamar aquela instituição de colégio, pois concernente a seus métodos repressores assemelha-se tranquilamente a um reformatório - observa-se, logo na entrada, os seguintes dizeres: “No fundo do poço”. Ou seja, teria realmente essa instituição um olhar social na intenção de compartilhar e trabalhar a aprendizagem e sua avaliação, respeitando os seres humanos que ali se encontram? É lógico que não! O que se observa em “A voz do coração”, antes da chegada do professor de música, Clémente Mathieu, é justamente o contrário, o que se verifica é uma educação repressora.

Se pensarmos numa suposta didática daquela instituição- e quando digo suposta é por perceber que não há nada que se assemelhe ao conteúdo e a teoria da qual a didática carrega em si , como, por exemplo, planejamento e estratégias adotadas pela equipe docente na intenção de estabelecer de forma significativa o ensino e a aprendizagem- verifica-se, portanto, que as experiências dos alunos naquele local é totalmente inversa, basta, para tanto, observar o lema pelo qual o diretor Rachin se baseia: “ação e reação” como método de correção. Tudo isso para que os internos possam aprender a se comportarem, caso contrário, seriam confinados em uma solitária. Método esse que tende a adestrar os alunos no objetivo de adquirir deles bom comportamento advindo do medo, da repressão e, tendo como resposta: crianças agressivas, com baixa estima por não encontrar naquele ambiente nenhuma afetividade ou algo que o incentive e estimule para o processo de socialização.

A chegada do professor de música, por sua vez, e através dele, o ensino adquire novo enfoque: tem-se agora um profissional que conduzirá os alunos a perceberem uma nova realidade bem diferente do que a instituição impunha, avaliará suas habilidades fazendo com que, dentro de um aspecto humanístico e de afeto ante aos alunos, promova a auto-estima em cada um, se sentindo úteis e, não, como sendo parte do mobiliário de uma sala de aula.

É muito comum hoje em dia, e basta observar dentro da sala de aula, certos alunos quietinhos no canto, não falam, não participam de certas atividades e muitos dos professores nem se quer procuram saber o porquê daquilo. Não se interessam, configurando numa espécie de abandono de forma indireta por meio desse profissinonal. No filme, tal aspecto também é abordado de forma crítica em relação ao aluno que , não possuindo uma voz adequada para o canto, mesmo assim, não foi posto de lado, mas aproveitado uma outra habilidade sua para que este não se sentisse abandonado, excluído das atividade. Apesar da situação e cena se mostrarem engraçadas, esse aluno, que não possuía habilidade alguma para o canto, acaba ajudando o professor servindo de “estante”, digamos assim, para segurar a partitura. De uma forma ou de outra, ele também estava atuando junto à turma.

Ser professor não é somente transmitir o conteúdo da disciplina, mas deve estar atento aos seus alunos, as suas pontencialidades e dificuldades, orientando-os a construírem o conhecimento necessário para uma vida social mais digna. É capacitar, ajudar a se tornarem sujeitos pensantes e não repetidores de uma gama de informações.

Diante disso, é importante que o profissional de educação perceba e desenvolva as habilidades que cada um de seus alunos possuem; isto deve ser trabalhado e desenvolvido no discente para que este não veja a escola como um lugar enfadonho e sem perspectiva.

O longa de Christophe Barratier, como foi analisado aqui, aborda a educação em seus vários aspectos, e, dentro deles, cito dois por serem expressivos: as atitudes autoritárias por parte do diretor da instituição que se estabelece na incoerência dos tratos com os alunos, falta de respeito ante ao ser humano e imposição pessoal para prevalecer o que ele acha que é certo; e o segundo aspecto envolve as atitudes humanísticas cujos elementos principais deve inserir afetividade, respeito e dedicação, contribuindo de forma significativa para melhorar a auto estima do aluno e, com isso, estimular a confiança em ultrapassar suas dificuldades de aprendizagem e superação de obstáculos que cada idade exige.

Portanto, eis um excelente filme que demonstra que, acima de tudo, o amor, a bondade, o respeito e, principalmente, a sensibilidade e a compreensão devem fazer parte de qualquer currículo e método de ensino no caminhar do profissional de educação.


Dados do Filme:

Título Original: Les Choristes
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 95 minutos
Ano de Lançamento (França): 2004
Direção: Christophe Barratier
Roteiro: Christophe Barratier e Philippe Lopes-Curval
Produção: Arthur Cohn, Nicolas Mauvernay e Jacques Perrin

Música: Bruno Coulais


Sinopse:

Um professor de música vai trabalhar numa rígida instituição de reeducação de jovens meninos. Com paciência, ele tenta melhorar suas vidas através da música. No entanto, ele terá que lutar para manter o coral dos meninos na ativa.


   
                         

Hola!!!!!!!
Vai uma dica artística importante??!!!
Para quem gosta de artes, não deixe de ver e apreciar a belíssima obra e uma pequena análise crítica sobre Salvador Dalí: "Criança geopolítica assistindo o nascimento de um novo homem". Vale a pena dar uma conferida.

Deixe comentários e críticas também!!
Aproveite esse espaço e sinta-se à vontade!!!
Um beijão!!!


terça-feira, maio 04, 2010

Resenha Crítica do filme O Leitor

Resenha Crítica dentro de uma abordagem que envolve aspectos relativos à ética , à moral e à conduta da sociedade alemã ante aos campos de concentração nazista.

Filme: O Leitor
(The Reader. Alemanha, EUA, 2008)


O filme “O Leitor”, de Stephen   Daldry, se baseia no livro de Bernhard Schlink e remonta a Alemanha destruída moral, ética e politicamente após alguns anos da Segunda Guerra Mundial. O longa narra a história de um adolescente, Michel Berg, que se apaixona quase que obsessivamente por Hanna Schmitz, uma mulher vinte anos mais velha e que, misteriosamente, desaparece de repente de sua vida. Anos mais tarde, ele a reencontra em um tribunal, no banco dos réus, e descobre que ela, a mulher que ele tanto amara, participou de vários  crimes de guerras contra os  judeus nos campos de concentração,   em    Auschwitz.
“O Leitor” se faz intrigante e envolvente por ressaltar alguns aspectos que irão de encontro à ética, à moral e à vergonha diante de um processo que revisará os crimes cometidos no Terceiro Reich: o julgamento de alguns soldados nazistas parece levantar uma poeira já assentada com o tempo e que permeia toda a sociedade alemã diante das atrocidades cometidas no governo de Hitler.

Julgar? Julgar os soldados ou carrascos de uma geração cuja sociedade se serviu desses mesmos guardas e algozes, e que nada fizeram por acreditar no legado de um tirano? Condenar tais algozes não seria o mesmo que condenar também tios, pais que participaram de forma indireta em tal governo? Não seria também o mesmo que se condenar a mesma vergonha, uma vez sendo “filhos” dessa geração anterior?   Existiria,  realmente,  algum  código  moral  e   ético  capaz   de   resolver tais   questões?
Outro fato interessante, presente no drama, está relacionado ao amor e a piedade, e fica uma ou várias perguntas implícitas no filme: Até que ponto pode-se amar alguém quando se descobre que essa mesma pessoa participou de uma das grandes atrocidades já cometidas no mundo atual? E Hanna seria de fato culpada ou inocente por se filiar a SS, ainda que sem saber do que realmente se tratava ? Cabe a cada interlocutor tal reflexão.

São essas, dentre outras, as muitas perguntas que fazem do filme um grande sucesso, por ir de encontro às muitas feridas narcísicas que envolveram e ainda envolvem a sociedade alemã; uma geração que, hoje em dia, mesmo não tendo participado desse passado, ainda assim se encontra debaixo de uma sombra que perpassa o tempo e surpreende por saber que, infelizmente, a história dos campos de concentração não foi uma mera ficção.

Stephen Daldry aborda a temática dos campos nazista de um modo diferente de como é tratado em muitos documentários e revista, os quais, em sua maioria, costumam atribuir grande relevância aos atos criminosos. Nesse sentido, “O Leitor”, foge um pouco dessa perspectiva há muito tempo narrada, nos permitindo, com isso, avaliar e pensar de forma crítica sobre uma sociedade que também fora participante de tal barbárie ao atribuir poder, apoiar e contribuir de forma significativa com os muitos ditadores que abalaram o mundo e causaram tamanha ferida na História mundial.


Dados do Filme:

titulo original: (The Reader)
lançamento: 2008 (Alemanha) (EUA)
direção: Stephen Daldry
atores: Ralph Fiennes , David Kross , Jeanette Hain , Kate Winslet , 
duração: 124 min
gênero: Drama

Sinopse:

A sociedade acredita que é guiada pela moralidade mas isto não é verdade. O premiado diretor de As Horas, Stephen Daldry, mostra novamente toda sua força nesta história de medos e segredos escondidos pelo tempo. Hanna (Kate Winslet) foi uma mulher solitária durante grande parte da vida. Quando se envolve amorosamente com o adolescente Michael (Ralph Finnes)não imagina que um caso de verão irá marcar suas vidas para sempre. Livro com sucesso mundial de vendas, O Leitor é a uma história que nos levará a questionar todas as nossas mais profundas verdades.




quarta-feira, março 03, 2010

Resenha Crítica do filme 1492- A Conquista do Paraíso

Resenha Crítica dentro de uma abordagem que envolve aspectos relativos ao colonizado e colonizador.
Filme: 1492- A Conquista do Paraíso.
( 1492- Conquest of Paradise. EUA, França, Espanha, 1992)


O filme “1492- A conquista do Paraíso”, de Ridley Scott, apresenta um cenário grandioso e fascinante diante da beleza da nau Santa Maria, das caravelas Pinta e Niña, a belíssima música de Vangelis, a qual permeia todo o filme, além da ousadia de Cristóvão que se transforma em grande líder de uma conquista. Tudo isso dá um aspecto épico a odisséia de Colombo em busca do paraíso que se caracteriza em descobrir um novo caminho, uma nova rota para a Ásia navegada pelo Ocidente. Nesse cenário de expedição ultramarina em nome da Coroa Espanhola, em doze de outubro de mil quatrocentos e noventa e dois, Cristovão Colombo avista a Ilha de Guanani, atual San Salvador.

Há também de se perceber no filme- até mesmo por essa produção fazer parte da comemoração dos quinhentos anos de “descobrimento” da América, e este longa ter sido produzido dentro da ótica americana - o quanto foi maquiada por Hollywood a relação entre Colombo e os nativos americanos. É difícil de acreditar que tamanha expedição tivesse como lema principal levar o povo a Deus. Porém, tal fato, serviu de pano de fundo para que pudesse por em prática os interesses de Colombo que, no filme, não é verdadeiramente mostrado, mas sim um líder benevolente que respeita as crenças e os hábitos dos nativos, punindo somente quando há uma desobediência. O que na verdade não foi isso que aconteceu, nem muito menos o pacifismo entre índios e europeus durou por muito tempo como demonstra; haja vista, em 1511, os relatos de Bartolomeu de Las Casas ante aos tratamentos dispensados aos nativos daquela ilha desde o início, pois os colonizadores possuíam o comprometimento de prestar contas a Coroa Espanhola e , com isso, não podiam perder muito tempo para logo apresentarem as riquezas em ouro e prata daquela terra conquistada.

Apesar da inocência dos índios em se mostrarem encantados com a aparência dos visitantes e considerando- os como deuses, uma vez que estes vinham do mar semelhante ao deus Sol que sumia ao fundo do oceano , o que se tem como relatos históricos é que a condição de colonizado sempre foi impregnada por batalhas sangrentas em busca de riquezas e estabelecimento de poder, e não foi diferente na América. É sabido que para impor uma cultura ou lei a uma determinada civilização conquistada era preciso, muitas das vezes, aniquilar para impor outra ordem. Não havia generosidade. Ainda mais se tratando de índios que, para os europeus, não tinham valor algum, não eram considerados como gente, além da nudez ser vista por eles como algo pecaminoso, o que aumentava ainda mais o abismo entre as duas etnias. Entretanto, quem assume o papel de algoz e ganancioso na ficção é o personagem Moxica, ausentando Colombo de toda crueldade para servir a ideologia de Ridley Scott diante de um filme encomendado para representar o descobrimento da América.

"A conquista do Paraíso" como apoio didático nas aulas de História também se faz interessante, mas nunca se esquecendo que ficção é sempre ficção, ela possibilida ao autor trabalhar com inúmeras possiblidades de criação, portanto, não precisando ser fiel totalmente aos fatos , a realidade.

 Outra coisa interessante que consta no longa é a gravura inicial de abertura do filme. Na verdade se trata de pinturas do artista Theodore de Bry que , no filme, está tingida de vermelho, simbolizando com isso, que a colonização entre européus e índios não foi tão passífica assim.


Dados do Filme:
"1492 - A Conquista do Paraíso"
Título original: (Conquest of Paradise)
Lançamento: 1992
Direção: Ridley Scott
Atores: Gérard Depardieu , Armand Assante , Sigourney Weaver , Loren Dean , Ángela Molina
Duração: 155 min
Gênero: Drama


Sinopse:
A história do navegador Cristovão Colombo, suas viagens, as dificuldades em provar suas teorias e o clima das Grandes Navegações. Realizado em 1992, em comemoração aos 500 anos do descobrimento da América. Filme denso, bem realizado por Ridley Scott e interpretado com vigor pelo francês Gerard Depardieu. O roteiro é de Roselyne Bosh e o consultor histórico foi Jose Corral Lafuente.

Trechos do filme neste belo clip e música!



Um breve Resumo:

 
O intuito do navegador Cristovão Colombo era chegar as Índias por um caminho marítimo que fosse bem mais rápido do que o já utilizado por Portugal, uma vez que este detinha o domínio do comércio marítimo europeu há mais de oitenta anos.

Seu projeto de navegação foi aprovado pelos reis da Espanha, Fernando e Isabel, apesar de ser bem diferentes dos planos utilizados por Portugal. Colombo seguiria sua viagem rumo ao oeste, pois estava convencido de que a Terra era redonda. Nesse sentido, imaginava que chegaria rapidamente ao seu destino, ou seja, as Índias, seguindo seu trajeto em linha reta.

Para convencer os reis da Espanha, Cristovão acreditava que, fazendo esse percurso, encontraria terras e um povo rico em metais e pedras preciosas. Nesse sentido, a viagem, segundo ele, parecia prometer vultoso retorno financeiro a Coroa Espanhola.

Em 12 de outubro de 1492, depois de ter navegado por mais de dois meses, a expedição chegou a uma terra desconhecida, aportando em uma pequena ilha da América Central, denominada por ele de San Salvador.

Américo Vespúcio, posteriormente, realizou também viagens à América e percebeu que o “Novo Mundo” encontrado não era a Índia, mas sim uma nova e grande extensão de terra que recebeu, em sua homenagem, o nome de América.

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