Poiésis

sexta-feira, maio 21, 2010

Resenha crítica do filme A Voz do Coração

                                           


Resenha Crítica do filme “A voz do Coração”
(“Les Choristes” - França- 2004)



“A voz do coração”, filme de Christophe Barratier, reporta à França da década de 40 – mais precisamente em 1949, três anos após o término da 2ª Guerra Mundial-, fase em que muitas mulheres, no período do conflito bélico, sofreram abusos sexuais, violências físicas, psíquicas e muitos de seus maridos e filhos foram mortos nos combates. Resultado disso: muitas crianças nasceram fruto dos muitos estupros; outras foram abandonadas ou tiveram seus pais mortos; outras entregues ao internato, pois, diante da grande quantidade de homens mortos devido à guerra e a economia está em colapso, as mulheres tiveram que largar suas vidinhas domésticas e abrir mão da educação familiar de seus filhos; passaram a arregaçar as mangas nas fábricas caso não quisessem morrer de fome. Não faltou, nessa época, propagandas elegantes e cartazes convidativos incentivando o quão maravilhoso e honroso para o Estado era o trabalho feminino.

Diante disso, de todo esse contexto social, o filme narra a história dessas crianças órfãs, delinqüentes ou sem aparente futuro que vivem em uma instituição de ensino no qual, pode ser observado, não há uma preocupação com o ensinar, naquilo que envolve uma educação que capacite os alunos a refletirem os diversos assuntos de forma crítica, mudança de comportamento, assimilação de valores éticos e morais para se tornarem cidadãos de fato.

No colégio - se é que pode chamar aquela instituição de colégio, pois concernente a seus métodos repressores assemelha-se tranquilamente a um reformatório - observa-se, logo na entrada, os seguintes dizeres: “No fundo do poço”. Ou seja, teria realmente essa instituição um olhar social na intenção de compartilhar e trabalhar a aprendizagem e sua avaliação, respeitando os seres humanos que ali se encontram? É lógico que não! O que se observa em “A voz do coração”, antes da chegada do professor de música, Clémente Mathieu, é justamente o contrário, o que se verifica é uma educação repressora.

Se pensarmos numa suposta didática daquela instituição- e quando digo suposta é por perceber que não há nada que se assemelhe ao conteúdo e a teoria da qual a didática carrega em si , como, por exemplo, planejamento e estratégias adotadas pela equipe docente na intenção de estabelecer de forma significativa o ensino e a aprendizagem- verifica-se, portanto, que as experiências dos alunos naquele local é totalmente inversa, basta, para tanto, observar o lema pelo qual o diretor Rachin se baseia: “ação e reação” como método de correção. Tudo isso para que os internos possam aprender a se comportarem, caso contrário, seriam confinados em uma solitária. Método esse que tende a adestrar os alunos no objetivo de adquirir deles bom comportamento advindo do medo, da repressão e, tendo como resposta: crianças agressivas, com baixa estima por não encontrar naquele ambiente nenhuma afetividade ou algo que o incentive e estimule para o processo de socialização.

A chegada do professor de música, por sua vez, e através dele, o ensino adquire novo enfoque: tem-se agora um profissional que conduzirá os alunos a perceberem uma nova realidade bem diferente do que a instituição impunha, avaliará suas habilidades fazendo com que, dentro de um aspecto humanístico e de afeto ante aos alunos, promova a auto-estima em cada um, se sentindo úteis e, não, como sendo parte do mobiliário de uma sala de aula.

É muito comum hoje em dia, e basta observar dentro da sala de aula, certos alunos quietinhos no canto, não falam, não participam de certas atividades e muitos dos professores nem se quer procuram saber o porquê daquilo. Não se interessam, configurando numa espécie de abandono de forma indireta por meio desse profissinonal. No filme, tal aspecto também é abordado de forma crítica em relação ao aluno que , não possuindo uma voz adequada para o canto, mesmo assim, não foi posto de lado, mas aproveitado uma outra habilidade sua para que este não se sentisse abandonado, excluído das atividade. Apesar da situação e cena se mostrarem engraçadas, esse aluno, que não possuía habilidade alguma para o canto, acaba ajudando o professor servindo de “estante”, digamos assim, para segurar a partitura. De uma forma ou de outra, ele também estava atuando junto à turma.

Ser professor não é somente transmitir o conteúdo da disciplina, mas deve estar atento aos seus alunos, as suas pontencialidades e dificuldades, orientando-os a construírem o conhecimento necessário para uma vida social mais digna. É capacitar, ajudar a se tornarem sujeitos pensantes e não repetidores de uma gama de informações.

Diante disso, é importante que o profissional de educação perceba e desenvolva as habilidades que cada um de seus alunos possuem; isto deve ser trabalhado e desenvolvido no discente para que este não veja a escola como um lugar enfadonho e sem perspectiva.

O longa de Christophe Barratier, como foi analisado aqui, aborda a educação em seus vários aspectos, e, dentro deles, cito dois por serem expressivos: as atitudes autoritárias por parte do diretor da instituição que se estabelece na incoerência dos tratos com os alunos, falta de respeito ante ao ser humano e imposição pessoal para prevalecer o que ele acha que é certo; e o segundo aspecto envolve as atitudes humanísticas cujos elementos principais deve inserir afetividade, respeito e dedicação, contribuindo de forma significativa para melhorar a auto estima do aluno e, com isso, estimular a confiança em ultrapassar suas dificuldades de aprendizagem e superação de obstáculos que cada idade exige.

Portanto, eis um excelente filme que demonstra que, acima de tudo, o amor, a bondade, o respeito e, principalmente, a sensibilidade e a compreensão devem fazer parte de qualquer currículo e método de ensino no caminhar do profissional de educação.


Dados do Filme:

Título Original: Les Choristes
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 95 minutos
Ano de Lançamento (França): 2004
Direção: Christophe Barratier
Roteiro: Christophe Barratier e Philippe Lopes-Curval
Produção: Arthur Cohn, Nicolas Mauvernay e Jacques Perrin

Música: Bruno Coulais


Sinopse:

Um professor de música vai trabalhar numa rígida instituição de reeducação de jovens meninos. Com paciência, ele tenta melhorar suas vidas através da música. No entanto, ele terá que lutar para manter o coral dos meninos na ativa.


   
                         

Hola!!!!!!!
Vai uma dica artística importante??!!!
Para quem gosta de artes, não deixe de ver e apreciar a belíssima obra e uma pequena análise crítica sobre Salvador Dalí: "Criança geopolítica assistindo o nascimento de um novo homem". Vale a pena dar uma conferida.

Deixe comentários e críticas também!!
Aproveite esse espaço e sinta-se à vontade!!!
Um beijão!!!

7 comentários:

Jack disse...

Resenha muito bem feita, bem elaborada. Esclareceu todas as dúvidas que tinha.Adorei.

Simone Prado disse...

Obrigada, Jack, por sua visita e comentário. Esse é um dos filmes mais bonitos que já pude assistir sobre educação. Volte sempre quando puder! Um abração
Si.

daniella disse...

Simone, achei excelente sua resenha,tanto que,espiei seu blog e li coisas fantásticas.Fiquei emocionada,sem palavras.Seu poema viver é de arrepiar.Fiquei sua fã.PARABÉNS!!!Se puder comunique-se comigo,meu nome é Daniella ,eu sou professora.

Simone Prado disse...

Olá Daniella!
Muito obrigada por suas palavras meigas e incentivadoras!! Fico super feliz por vc ter gostado dessa minha poesia xodó, rsrs... Amei fazê-la, e achei o resultado em vídeo tb muito bom! Que bom que tenha gostado. Me desculpa pela demora em responder esse comentário, mas só agora apareceu no meu e-mail e painel da blogger.
Pois é... gostaria muito de entrar em contato contigo tb... Mas, por aqui, não tive como. Qualquer coisa, mande um e-mail, ok?! Um abração.
Volte sempre.
E obrigada pela visita e carinho
Bjs!

Si.

Yago Lira disse...

Uma belíssima resenha crítica sobre o Filme. Está de Parabéns! 👏

Yago Lira disse...

Uma resenha crítica bem elaborada. Gostei muito! Parabéns! 👏

Simone Prado Ribeiro disse...

Valeu, Yago! Obrigada.
Volte sempre!